Sob pressão eleitoral, Santos estuda acelerar negociações com rebeldes

Sem demora. Na visão do presidente colombiano, que tentará se reeleger no segundo turno do dia 15, o avanço no diálogo de paz com as Farc trará vantagem sobre seu adversário linha dura, Óscar Iván Zuluaga - que o critica por fazer concessões excessivas

RODRIGO CAVALHEIRO , ENVIADO ESPECIAL / BOGOTÁ , O Estado de S.Paulo

28 Maio 2014 | 02h07

O presidente colombiano, Juan Manuel Santos, afirmou ontem que seus negociadores se dividirão em dois grupos e cada equipe trabalhará num dos pontos que faltam para chegar a um acordo na negociação com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), mantida em Havana desde 2012.

Em sua primeira manifestação após receber no domingo menos votos do que o candidato uribista Óscar Iván Zuluaga no primeiro turno da eleição, Santos disse à Rádio Caracol que a proposta será feita aos representantes rebeldes para "terminar com essa guerra uma vez por todas". A eleição será decidida no segundo turno, dia 15.

Santos iniciou há 20 meses um processo de paz que avançou em três de cinco pontos: reforma agrária, saída da guerrilha do narcotráfico e entrada do grupo na política. O próximo ponto a ser debatido será a compensação às vítimas, feita na forma de uma comissão da verdade encarregada de esclarecer atentados, sequestros e desaparições. O último item em questão é o fim do conflito em si. Nele estão incluídas a entrega das armas, a incorporação dos guerrilheiros à vida civil e a revisão pelo governo de prisões motivadas por colaboração com as Farc. Santos quer que os dois pontos sejam estudados ao mesmo tempo.

"O tema da paz é central na campanha. É uma decisão estratégica da campanha de Santos que ele marque as diferenças entre os candidatos e qualquer avanço nessas três semanas, em teoria, o beneficiaria. Em contrapartida, o tempo é escasso e, se algo for anunciado sem detalhar as concessões feitas, o efeito pode ser o oposto. Pode parecer algo eleitoreiro", avalia a analista política Patricia Muñoz, da Universidade Javeriana de Bogotá.

Ao tentar acelerar o processo, o presidente, que teve 25,69% dos votos, responde à provocação feita durante a campanha e repetida na segunda-feira por Zuluaga. "Primeiro, Santos falou em 6 meses. Depois, em 1 ano. Agora, em 2 anos. Quanto vamos esperar?", disse o opositor, que obteve 29,25% dos votos no domingo.

Zuluaga conta com a adesão da conservadora Martha Lucía Ramírez, que obteve 15,52% dos votos e chegou em terceiro lugar. Ele promete a suspensão da negociação se as Farc não aceitarem um cessar-fogo total e exige que os líderes do movimento cumpram pelo menos 6 anos de prisão. Na prática, sua vitória levaria ao fim do diálogo.

Santos sofreu desgaste durante a campanha porque as tratativas indicam penas leves - em geral, de serviços comunitários - aos que forneçam informações confidenciais, por exemplo, sobre rotas de cartéis e o destino de desaparecidos. Pesquisa da Universidade de Los Andes mostra que 75% dos colombianos estão contra a anistia aos líderes da guerrilha. Em outro sinal de uma mudança de tom em sua campanha, o presidente afirmou ontem que "acusados de crime contra humanidade não poderão chegar ao Congresso".

O presidente ainda buscava ontem o apoio da esquerdista Clara López (15,23% dos votos) e do candidato do Partido Verde, Enrique Peñalosa (8,28%), que estão de acordo com as linhas gerais do que foi negociado com as Farc. O pacto só valerá se for referendado pelos colombianos, o que no Acordo-Geral para o Fim do Conflito aparece como sexto item, mas é considerado por especialistas uma formalidade. Ainda será decidido se essa aprovação ocorreria item por item ou em uma consulta de pergunta única. As Farc defendem a formação de uma Assembleia Constituinte.

Compensação. A reparação do Estado aos prejudicados pelo conflito está prevista na Lei de Vítimas, de 2011, que indica parâmetros para indenizações a colombianos feridos, a expulsos de suas terras por guerrilheiros e paramilitares e a parentes de desaparecidos. O ponto pendente em Havana, que complementaria a lei, é controvertido porque um de seus itens secundários trata dos "direitos humanos das vítimas", entre as quais as Farc se incluem.

A agricultora Rosa Torres, de 37 anos, escapou em 2009 de Huila, a 370 quilômetros de Bogotá (seis horas por terra em uma estrada montanhosa). Não teve como pagar a "vacuna" (vacina, em espanhol), propina que a guerrilha cobra de agricultores por "proteção". "Disseram que era ir com eles ou abandonar a terra." O marido passou para a guerrilha - à força, segundo ela.

Em busca de uma indenização de US$ 78 mil, ela ainda espera recuperar a terra em que plantava café, banana e cana-de-açúcar, mas não está otimista com o diálogo de paz. "O Estado não faz a paz nem com quem ele desalojou. Cada agricultor passa fome em Bogotá depois de deixar suas terras. A negociação é pura encenação."

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