Sob pressão, governo paquistanês restitui juiz

Zardari aceita exigência de oposição após repressão frustrada a protestos

NYT, Reuters E AP, ISLAMABAD, O Estadao de S.Paulo

16 de março de 2009 | 00h00

Cedendo aos protestos que se espalharam pelo país, o governo paquistanês de Asif Ali Zardari aceitou na madrugada de ontem reconduzir o juiz Iftikhar Chaudhry à presidência da Suprema Corte e anunciou um pacote de reformas constitucionais. Chaudhry havia sido exonerado em 2007 pelo ex-presidente Pervez Musharraf, mas a crise atual iniciou-se há um mês, quando a Suprema Corte negou ao líder oposicionista Nawaz Sharif o direito de concorrer a cargos eletivos.A decisão do presidente Zardari tenta evitar a "revolução" prometida por Sharif, com chegada à capital de manifestantes de todo o país prevista para hoje. As principais reivindicações dos manifestantes eram o retorno de Chaudhry e a garantia de um judiciário independente. Até o momento, as tentativas de impedir pela força que a "longa marcha" chegasse a Islamabad haviam fracassado. Apoiado por multidões, Sharif, ex-premiê e presidente do partido de oposição Liga Islâmica, desafiou a ordem de prisão domiciliar e deixou ontem sua casa, rodeada por arame farpado e blocos de concreto, na periferia de Lahore.Sharif saiu rumo a Islamabad em um longo cortejo de carros, com partidários alinhados para saudá-lo ao longo dos 320 quilômetros do percurso, segundo disse Ahsan Iqbal, secretário da Liga Muçulmana. De acordo com Iqbal, trabalhadores do partido equipados com guindastes estavam removendo os contêineres colocados como bloqueios de estrada no caminho para a capital. Em entrevista por telefone à estação de televisão Geo, Sharif disse: "Isto é o prelúdio de uma revolução." Ele também caracterizou a repressão que estava sofrendo como ilegal. Em Islamabad, Farahnaz Ispahani, porta-voz da presidência, afirmou que a ordem de detenção contra Sharif e outros líderes da Liga Muçulmana havia sido emitida "para o bem da sua segurança". Após atravessar barreiras policiais, o comboio de Sharif chegou à principal via de Lahore, onde foi cercado por uma multidão de simpatizantes agitando bandeiras e gritando slogans pela restauração de uma Justiça independente. Aparentemente com a ajuda de policiais, o comboio de Sharif conseguiu avançar lentamente para a área em torno do prédio dos correios, onde a tropa de choque e os manifestantes começaram a se enfrentar. Várias centenas de policiais dispararam bombas de gás lacrimogêneo por mais de uma hora contra os manifestantes. Depois, a polícia trouxe veículos blindados para disparar novas descargas de gás lacrimogêneo enquanto pedras e cartuchos de gás vazios forravam a rua. Alguns manifestantes atearam fogo em pneus. Mas, por volta das 17h, a polícia desapareceu.DESOBEDIÊNCIAEm vez de enfrentar os manifestantes, vários policiais da tropa de choque de Lahore uniram-se aos protestos. Segundo analistas, o fracasso da ação repressiva do governo evidencia uma desobediência das forças de segurança sem precedentes no país. No início da noite, a visão de multidões exultantes em Lahore - uma mistura de apoiadores de Sharif, seguidores de partidos de oposição menores e pessoas comuns - encorajou a população de outras cidades a saírem às ruas. Bandeiras verdes, vermelhas e brancas com retratos de Sharif eram agitadas, enquanto grupos diversos se uniam ao que se transformou na pior crise do governo de Zardari.

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