Sob pressão, Japão solta capitão chinês

Libertação ocorre após a China divulgar a prisão de quatro japoneses; decisão de Tóquio é vista como sinal de debilidade do governo do PDJ

Cláudia Trevisan, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2010 | 00h00

O Japão cedeu à pressão da China e libertou ontem o capitão de um barco pesqueiro preso em 8 de setembro em águas disputadas pelos dois países. Poucas horas antes, Pequim havia divulgado a prisão de quatro japoneses acusados de filmar instalações militares na Província de Hebei, o que pode prolongar o mais grave confronto dos últimos anos entre as duas maiores economias da Ásia.

A decisão do Japão foi interpretada como uma vitória na China e uma demonstração de fraqueza do governo japonês. Na manhã de ontem, promotores de Osaka responsáveis pelo caso disseram que seria "impróprio" continuar a investigação e manter o capitão Zhan Qixiong sob custódia, em consideração ao "futuro da relação entre o Japão e a China".

O governo chinês saudou o retorno do capitão, mas pediu uma compensação e desculpas de Tóquio, reiterando ter soberania sobre as ilhas. Ao libertar Zhan, o Japão reconheceu implicitamente que sua prisão era ilegal, afirmou o diretor do Instituto de Estudos Internacionais da Universidade Tsinghua, Yan Xuetong. "A decisão mostra que o Japão não tem soberania sobre as ilhas Diaoyu", ressaltou.

Chamadas de Senkaku em japonês, as ilhas estão no centro do conflito desencadeado pela prisão do capitão chinês.

Jia Qingguo, da Escola de Estudos Internacionais da Universidade de Pequim, disse que a China não poderia aceitar que o capitão fosse julgado nos termos da lei japonesa, o que significaria a admissão da soberania de Tóquio sobre a região disputada pelos dois países. "Houve conflitos anteriores em torno das ilhas, mas essa foi a primeira vez em que barcos de patrulha do Japão prenderam um cidadão chinês no local", observou. Nas vezes anteriores, os detidos foram imediatamente deportados.

Pesquisa online realizada pela agência de notícias Reuters no Japão mostrou que os votantes reprovaram de modo quase unânime a decisão de Tóquio de libertar Zhan. Até às 2h30 de hoje (horário de Tóquio), 91% das 2.425 pessoas que se haviam manifestado condenaram a decisão, vista como um sinal de debilidade do Partido Democrático do Japão, que assumiu o poder há um ano. O chefe de gabinete do Japão, Yoshito Sengoku, afirmou que o Executivo não teve nenhuma influência na decisão de libertar Zhan, que teria sido adotada de maneira independente pelos promotores da prefeitura de Okinawa.

Sengoku disse não acreditar que a prisão dos quatro japoneses na China tenha relação com a disputa travada entre os dois países. Ele reconheceu que os laços bilaterais se deterioraram e defendeu a necessidade de reverter a situação. "Como os dois países concordaram em forjar uma relação estratégica e mutuamente benéfica, é o momento de enriquecê-la", ressaltou.

Mas a libertação do capitão pode levar ao desgaste do governo do PDJ junto à opinião pública. O professor Toshiakazu Inoue, da Universidade Gakushuin, disse ao jornal Japan Times que o desfecho da crise foi o pior possível para Tóquio, já que deu a impressão de que o país sucumbiu à pressão da China.

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