AP Photo/Aaron Favila, File
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Sob pressão, Nobel rejeita uso de cotas

Jornalista filipina é a 59ª mulher entre quase mil laureados, o que suscita contestação ao sistema

Miriam Berger / THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

13 de outubro de 2021 | 05h00

Quando a jornalista filipina Maria Ressa ganhou o Prêmio Nobel da Paz ao lado do jornalista russo Dmitri Muratov, foi apenas a 59.ª vez em que um prêmio Nobel foi concedido a uma mulher, em meio a quase mil contemplados.

Desde a sua criação, em 1901, o Prêmio Nobel Prize homenageou feitos intelectuais na física, química, psicologia e medicina, literatura e paz. Em geral, os homenageados foram homens brancos americanos (uma exceção é a cientista Marie Curie, premiada cedo, e duas vezes).

Apesar dos apelos para a correção de diferenças históricas no tratamento aos gêneros e raças, com a instituição de cotas, o diretor da academia que concede os prêmios científicos disse que tal possibilidade foi excluída. “Decidimos não instituir cotas por gênero ou etnia”, disse o diretor da Academia Real de Ciências, Goran Hansson. De acordo com ele, os premiados devem ser escolhidos “por terem feito a descoberta mais importante".

Hansson disse que a ideia foi debatida pela última vez três semanas atrás. “Tememos a possibilidade de as premiadas serem desmerecidas, como se tivessem sido reconhecidas por serem mulheres, e não por serem as melhores", disse ele. Os críticos dizem que o processo de seleção deixa de levar em consideração o quanto o sexismo e o racismo favoreceram historicamente os homens brancos, impedindo que muitas mulheres e não brancos alcançassem o ápice em suas respectivas áreas. Hansson reconheceu que o processo nem sempre foi justo.

“É triste que seja tão pequeno o número de mulheres premiadas, algo que reflete as condições injustas da sociedade, particularmente nos anos anteriores, mas que ainda perduram”, disse ele. “E ainda há muito a fazer.” Uma cota para corrigir esse desequilíbrio não estaria “alinhada com o espírito do testamento de Alfred Nobel”, disse ele.

O químico e industrial sueco Alfred Nobel definiu os critérios fundadores para a premiação no seu testamento, escrito um ano antes da morte dele, em 1896. Ele afirmou especificamente que a comissão não deveria levar em consideração a nacionalidade de um indicado ao conceder o prêmio. Desde então, o prêmio de tornou sinônimo da mais alta excelência profissional. 

Ciências

O abismo entre os gêneros é particularmente notável nas ciências. Apenas quatro dos mais de 200 ganhadores da história do Nobel de física eram mulheres.

No ano passado, as cientistas Emmanuelle Charpentier e Jennifer Doudna foram as primeiras mulheres a ganhar o Prêmio Nobel de química sem a participação de um colaborador masculino, de acordo com a Smithsonian Magazine.

Os ganhadores também são, em sua esmagadora maioria, brancos. Pouco mais de dez ganhadores do Nobel eram negros, e nenhum negro, seja homem ou mulher, foi premiado em uma categoria científica, de acordo com a Smithsonian.

Hansson disse que ele e os colegas tentaram fechar essas lacunas incentivando mais diversidade no processo de escolha dos indicados.

“Estamos cientes do problema e estamos alertas para os vieses inconscientes nas academias e comissões (que decidem a premiação)”, disse ele. “Participamos de palestras com sociólogos, tivemos debates em grupo, investimos bastante esforço nisso.”

“Apenas cerca de 10% dos professores de ciências naturais na Europa Ocidental e na América do Norte são mulheres, proporção que diminui ainda mais de analisarmos o Leste Asiático”, de acordo com ele.

“Precisamos de uma atitude diferente para a participação das mulheres na ciência”, acrescentou ele, “para que elas tenham a oportunidade de fazer essas descobertas e ser reconhecidas".

Em mensagem publicada no Twitter este mês, a agência das Nações Unidas dedicada à igualdade de gênero, UN Women, destacou como tem sido raro ver mulheres premiadas com o Nobel.

“Infelizmente, a sub-representação das mulheres entre os premiados com o Nobel ao longo dos anos é apenas outro indicador do lento progresso em relação à igualdade de gênero”, publicou a UN Women. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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