Sob pressão, regime sírio nega autoria de massacre e ONU condena ofensiva

Responsabilidade. Americanos negociaram com governo russo a não obstrução da moção do Conselho de Segurança que condenou o regime de Assad e pediu uma investigação; em Hula, cenário da chacina de 108 pessoas, moradores clamam por intervenção externa

DAMASCO, O Estado de S.Paulo

28 Maio 2012 | 03h00

Sob intensa pressão da comunidade internacional, o regime sírio tentou desmentir ontem que fosse o responsável pelo massacre de 108 pessoas - incluindo 49 crianças - ocorrido no sábado. O regime sírio atribuiu a chacina a "grupos terroristas armados". Mas monitores da ONU que estão na Síria confirmaram que tanques e peças de artilharia do Exército dispararam contra a cidade de Hula, centro do país.

O Conselho de Segurança - órgão deliberativo das Nações Unidas - foi convocado para uma reunião de emergência ontem, condenou o regime e pediu a abertura de uma investigação. A Rússia, que é membro permanente do conselho e um dos principais aliados de Damasco na entidade, foi convencida a não obstruir a moção que condenou "nos mais duros termos" o regime de Bashar Assad, acrescentando que tanques do Exército sírio "atacaram pesadamente um bairro residencial". "Os responsáveis pelos atos de violência deverão prestar conta deles", diz a moção.

O massacre de Hula, considerado o mais sangrento episódio em uma única região desde o início da revolta contra Assad, há 15 meses, se deu ainda às vésperas de uma programada viagem do ex-secretário-geral da ONU e principal mediador da crise síria, Kofi Annan, a Damasco.

Annan deve se reunir hoje com representantes do governo sírio para cobrar deles o cumprimento de um acordo firmado em abril, que previa o fim das ofensivas de militares de Damasco contra possíveis opositores e o início de conversas que possam levar a uma saída negociada para a onda de violência.

Segundo os rebeldes, mais de 13 mil pessoas foram mortas pelas forças do regime desde o início da revolta.

"Negamos categoricamente qualquer responsabilidade do governo nesse massacre terrorista", declarou o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores sírio, Jihad Makdissi, procurando aliviar a pressão contra o regime de Assad.

Por seu lado, o líder opositor sírio Burhan Ghaliun exigiu das Nações Unidas uma "batalha de liberação" contra o regime de Damasco, invocando o Capítulo 7 da Carta da ONU, que permite intervenções militares.

Em Hula, sobreviventes do massacre que enterravam seus parentes culpavam também a falta de ação da ONU pelo massacre.

"Havia crianças de menos de 8 meses? O que elas fizeram? Levavam, por acaso, lançadores de foguetes?", gritava um homem a um observador da ONU na cidade.

"Nos matam e o mundo segue de braços cruzados. Vá ao diabo com seu plano, Annan", indignava-se outro morador.

Violência. Ontem, uma nova ofensiva das tropas do regime sírio na cidade de Hama matou pelo menos 33 pessoas, entre elas 7 menores de 16 anos, 5 mulheres e 4 militares desertores. Segundo o Observatório Sírio de Direitos Humanos (OSDH), a cidade foi atacada com metralhadoras pesadas e lança-foguetes. Uma casa foi bombardeada e muitas pessoas saíram às ruas gritando e pedindo ajuda médica.

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