Sob pressão, Venezuela desvaloriza 46,5% sua moeda

Defendida há meses por economistas, medida tem como objetivo aliviar dívida pública e conter escassez de dólares no mercado

CARACAS, O Estado de S.Paulo

09 de fevereiro de 2013 | 02h02

O governo da Venezuela anunciou ontem uma desvalorização de 46,5% no bolívar forte. Com a medida, defendida havia meses por economistas privados e negada por colaboradores do presidente Hugo Chávez, a cotação oficial da moeda americana passa de 4,3 bolívares para 6,3 bolívares. A moeda venezuelana estava hipervalorizada pelo regime de câmbio fixo em vigor no país. No mercado negro, chegava a ser negociada por até 18 bolívares.

A escassez de dólar no mercado dificultou a compra de produtos importados - cruciais para um país onde a indústria basicamente consiste na produção de petróleo. Além disso, as reservas em moeda estrangeira do país estavam num nível baixo. A desvalorização aumenta a receita em bolívares do governo, que enfrenta um déficit público crescente. O lado negativo da medida é que ela pode colaborar para o aumento da inflação.

A justificativa dada pelo ministro da Economia Rafael Giordani é a de necessidade de equilíbrio nas contas do governo e da principal empresa do país, a petrolífera estatal PDVSA. "Não é um câmbio de taxa fiscalista, mas temos de ajustar as contas", disse o ministro.

Em 2012, o déficit fiscal venezuelano foi de 16% do PIB. A Venezuela tem uma das taxas de inflação mais altas da América Latina. Anunciada ontem, a taxa para os últimos 12 meses encerrados em janeiro ficou em 22,2%.

Outro problema decorrente da falta de dólares no país é o desabastecimento. Com a receita vinda da alta do petróleo nos últimos anos, Chávez impulsionou as importações para conter a escassez de produtos em ano de eleição. Como a maioria dos alimentos no país vem de fora e há pouca oferta de dólar em razão do câmbio subvalorizado, faltam produtos nos supermercados.

O principal líder da oposição venezuelana, Henrique Capriles, criticou a medida por meio de sua conta no Twitter. "Inflação de 3,3% (ao mês) e agora desvalorização. A dupla Nicolás Maduro (vice-presidente) e Diosdado Cabello (presidente da Assembleia Nacional) está levando a sério a ideia de acabar com a Venezuela", disse.

O governo também anunciou ontem o fim do sistema de câmbio duplo de compra de dólares. O chamado sistema de transações de Títulos em Moeda Estrangeira, que negociava dólares para pessoas jurídicas a uma cotação de 5,3 bolívares, foi extinto.

As alterações macroeconômicas na Venezuela ocorrem em meio a ausência de Chávez, internado em Cuba desde dezembro para recuperar-se de uma quarta cirurgia contra um câncer pélvico. No ano passado, ele tinha rejeitado a medida. / REUTERS

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