(Koji Harada/Kyodo News via AP)
(Koji Harada/Kyodo News via AP)

Sob protestos em Okinawa, Donald Trump amplia presença na Ásia

Estados Unidos mantêm tática de Obama de fortalecer laços militares na região e revoltam sedes de bases americanas, como as que ficam em território japonês

Rodrigo Turrer, O Estado de S.Paulo

11 Agosto 2018 | 18h19

Quando era candidato à presidência dos EUA, Donald Trump foi um crítico contumaz da Parceria Trans-Pacífico (TPP), o mega acordo comercial negociado por Barack Obama como um dos pontos-chave do chamado “pivô para a Ásia”: uma tentativa de tirar os EUA do Oriente Médio e focar na Ásia e no rival ascendente, a China. Muitos acreditavam que Trump poria fim à política vislumbrada por Obama e formulada ao longo de oito anos de governo.

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A decisão de Trump de sair do TPP (sigla em inglês), no ano passado, parecia confirmar esse receio. Mas as visitas subsequentes de altos funcionários, incluindo os secretários de Estado, de Defesa e de Comércio, e a viagem de Trump a vários países asiáticos, deixaram claro que o pivô iniciado com Obama continuaria sob Trump, com nova roupagem. Algo significativo, uma vez que o atual presidente tem como regra reverter projetos do antecessor.

“A saída do TPP, para muitos, seria o fim do pivô para a Ásia, mas foi o contrário. Obama queria um tripé para reforçar os laços de defesa, diplomáticos e econômicos dos EUA com a região. Trump apenas cortou a perna econômica”, diz Bonnie Glaser, diretora do Projeto China de Poder, do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, em Washington.

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A Estratégia Nacional de Defesa, divulgada pelo governo Trump no ano passado, definiu a China e a Rússia como as principais “competidoras estratégicas” dos EUA. Também orientou o país a “priorizar a preparação para a guerra”. “As Forças Armadas americanas vêm fazendo exatamente isso na Ásia há mais de seis anos. Com Obama, os EUA preparam e posicionaram uma vasta gama de navios, submarinos, bombardeiros, combatentes e divisões para travar uma guerra em toda a região”, afirma Peter Chalk, analista de Ásia da Rand Corporation.

Novas bases para as forças dos EUA foram estabelecidas na Austrália e em Cingapura e restabelecidas nas Filipinas e na Tailândia. Em fevereiro, o Wall Street Journal informou que o Pentágono deve implementar na região três Unidades Expedicionárias de Fuzileiros (MEUs), usadas principalmente no Iraque e no Oriente Médio na última década. São 2,2 mil marines, além de caças e helicópteros a bordo de navios de assalto anfíbio, acompanhados por cruzadores de mísseis guiados, destróieres e um submarino. 

A presença americana sofre oposição. Neste sábado, 11, cerca de 70 mil pessoas participaram de uma grande manifestação em Okinawa, uma ilha japonesa de 1,2 mil km² e 1,2 milhão de habitantes. Ela foi ocupada por forças dos EUA no final da 2.ª Guerra e considerada o “eixo” da estratégia militar dos EUA na Ásia. 

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O protesto, com um minuto de silêncio feito pela população reunida, foi contra a presença de bases americanas na ilha e a construção de uma nova unidade em Henoko, no norte. Para os manifestantes, a nova base arruinaria uma baía repleta de corais. Segundo a antiga tradição de Okinawa, existe um paraíso além do mar, o nirai kanai, e a baía faz parte dele.

Durante séculos, Okinawa foi um reino independente e pacífico (conhecido como Ryukyu) com sua própria língua e cultura. A ilha foi anexada pelo Império do Japão, em 1865, até o fim da 2.ª Guerra. Embora os EUA tenham entregado oficialmente a ilha ao Japão em 1972, Okinawa ficou com uma enorme base militar americana – uma “ilha da Guerra Fria” nas palavras de Chalmers Johnson, especialista em política japonesa. 

A ilha abriga duas das maiores bases dos EUA e a única base da Marinha americana fora dos EUA. Constituindo 0,6% do território do Japão, Okinawa abriga 75% dos 55 mil soldados dos EUA estacionados no Japão em 39 bases, que ocupam um quinto de todo seu território. 

Os EUA forçaram milhares de habitantes de Okinawa a deixar suas terras para construí-las e nem um pedaço de terra foi devolvido. Quando latifundiários e fazendeiros desafiaram o controle dos EUA, nos anos 50, os tribunais japoneses determinaram que o Japão não tem jurisdição sobre as operações militares americanas.

“Os okinawanos se ressentem das forças americanas por ocuparem terras preciosas, encenarem exercícios militares perigosos, contaminarem o meio ambiente e cometerem centenas de crimes”, afirma Hiroshi Ashitomi, de 71 anos, morador e líder do movimento contrário às bases, que há 30 anos organiza protestos. Como não tem jurisdição sobre os territórios com Forças Armadas dos EUA, a Justiça do Japão não pode condenar americanos que pratiquem crimes. Desde 1988, as bases da Marinha e dos Fuzileiros Navais em Okinawa registraram 169 casos de julgamentos em cortes marciais por agressão sexual – o número mais alto entre as 750 bases militares americanas no mundo. 

Os protestos, no entanto, são uma causa praticamente perdida. O governo japonês investe pesado na região para a manutenção das bases. Os EUA também. Só em 2017, os americanos injetaram US$ 5 bilhões em suas bases no Japão, o que garante ao país um sistema de defesa militar incomparável. “Não sou antiamericano, nem luto contra a segurança nacional do Japão. Queremos apenas sossego”, diz Hiroshi Ashitomi. “Passei 30 anos me sentando na frente das bases para protestar. E vou fazer isso até meus últimos dias.”

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