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AP Photo/Kevin Hagen
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Sob tensão, moradores de Paris mudam rotina e não escondem medo

Os principais símbolos da cidade foram fechados e o Exército patrulha as principais avenidas

Andrei Netto, CORRESPONDENTE / PARIS e Jamil Chade, ENVIADO ESPECIAL / PARIS , O Estado de S. Paulo

14 de novembro de 2015 | 11h53

O segundo atentado terrorista em menos de um ano em Paris teve um impacto profundo no comportamento da sociedade. Tensão entre moradores, medo, ruas com um movimento abaixo da média, os principais símbolos da cidade fechados e o Exército nas principais avenidas. Um cenário pouco comum para uma das capitais do mundo. 

Se num primeiro momento, o ataque contra o jornal satírico Charles Hebdo recebeu como resposta uma reação de força da população, com milhões ocupando praças e ruas em protesto, a morte de mais de 120 pessoas agora teve um impacto diferente. A possibilidade de que alguns dos terroristas ainda estivessem foragidos e o temor de represálias afastou a população de sua rotina. 

Alguns dos principais centros comerciais mantiveram suas portas fechadas, enquanto a Torre Eiffel era protegida por um forte esquema de segurança. A Disneyland, no norte de Paris, escolas e todos os eventos esportivos foram fechados. Nos locais dos atentados terroristas no 10o e 11o distritos de Paris, a polícia levantou parcialmente os cercos que haviam sido montados desde os primeiros minutos após os ataques.

Há um forte esquema de segurança também nos hospitais. No Bichat, onde está internado um dos brasileiros feridos, policais armados revistam até mesmo as ambulâncias, que são todas abertas e verificadas. Médicos e pacientes também são submetidos aos controles de segurança.  

Na região da casa de show Bataclan, onde mais de 70 pessoas morreram, um perímetro de cerca de 50 metros de isolamento foi mantido, para permitir o trabalho dos investidores e peritos e impedir a aproximação de curiosos. Nas imediações, os traços da violência, como manchas de sangue, ainda podiam ser vistos.

Em torno da Rue Bichat, onde se situam os restaurantes Le Petit Cambodge e Le Carrillo, local em que 12 pessoas morreram, parisienses e estrangeiros se alternaram depositando flores nas fachadas crivadas de balas dos imóveis e nas calçadas, ainda muito marcadas pelo sangue. 

"A minha rua está um desastre", afirmou o administrador de empresas Jean-Baptiste Bouvier, morador da Rue Bichat que chegou a sua casa cinco minutos antes dos ataques. "Diga ao Brasil que não temos medo e  isso só reforça a nossa determinação em reformar este país."

Em outro ponto do mesmo distrito, na Rue de la Fonteine au Roi, as fachadas de vidro perfuradas de balas de dois restaurantes e de uma lavanderia atestavam a violência dos acontecimentos. 

Onze estações de metrô da região foram fechadas, assim como o comércio e instituições de ensino públicas e privadas.“Estamos todos tensos, sem saber se devemos ou não sair às ruas”, disse a acreana Daniela Zanin, que há seis meses chegou a Paris para estudar francês. 

“O que impressionou muita gente é que os mortos são jovens que apenas tinham saído numa noite de sexta-feira para se divertir, jantar fora ou ver uma partida de futebol”, disse Louis, um universitário que insistiu que tentaria ter uma “vida normal”. “O curioso é que, entre os amigos, estamos agora sempre nos mandando mensagens e telefonando para saber se está tudo bem”, contou.

Um asilado político argelino, Rachid Hussein, colocou a bandeira francesa em seu carro e colocou uma gravata nas cores da França. “Viemos aqui nos anos 90 e já alertávamos as autoridades francesas sobre essas pessoas radicais. Hoje tem mais radicais aqui que na Argélia”, disse. “Temos de continuar a viver. Caso contrários, eles terão vencidos”, afirmou. 

 

A tensão era palpável também no aeroporto Charles de Gaulle, em alerta máximo. Com segurança reforçada, o controle de passaportes para quem chega passou a levar um tempo bem superior à média.  

Pelo local, homens armados e dezenas de policiais a paisana percorriam os corredores, salas de embarque e mesmo a pista de decolagem. “Somos muitos hoje aqui”, confirmou ao Estado um dos policiais, sem querer informar o número de seguranças enviados ao local e nem seu nome. 

Enquanto aguardava para recuperar sua mala, uma senhora comentava com um grupo de amigos os acontecimentos da sexta-feira, enquanto já dava sua receita. “Eles têm de expulsar toda essa gente”, insistia, enquanto outro alertava que o problema era que alguns deles são “tão franceses como nós”. 

Vinda de Beirute, a engenheira física Maciel Daoud questionava a reportagem se novos ataques poderiam ocorrer. “Eu me sinto hoje mais protegida no Líbano do que em Paris”, disse. “Em Beirute, eu sei onde eu não posso ir. Em Paris, essa fronteira parece que já não existe”.  

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