Brandon Bell/Getty Images/AFP
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Sob tensão, cidade de Minneapolis aguarda veredicto do policial que matou George Floyd

Empresas fecharam e moradores aguardam impacientes, temendo uma repetição dos distúrbios do ano passado caso o júri tome uma decisão considerada injusta pela população.

Tim Arango / The New York Times, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2021 | 17h35

MINNEAPOLIS - Por volta do meio-dia da segunda-feira passada, Samir Patel recebeu um telefonema do seu amigo dentista, dizendo que estava ouvindo tiros, as pessoas que estavam reformando o consultório que foi destruído nas rebeliões do ano passado haviam fugido. Ele estava fechando o consultório e disse a Patel para baixar as portas da sua lavanderia.

“Não sabemos o que irá acontecer”, disse Patel, imigrante da Índia que teve um prejuízo de US$ 500 mil na ocasião dos protestos ocorridos no ano passado quando George Floyd foi morto por um policial. Ele teve de usar todas as suas economias e sua conta de aposentadoria para reabrir seu negócio. “Não podemos prever o que vai suceder agora”, afirmou. “Está além da nossa imaginação."

A lavanderia de Patel, Elite Cleaners, está numa rua lateral não muito longe da sede da delegacia de polícia que foi incendiada no ano passado após a morte de Floyd. A comunidade em torno de Lake Street, um corredor de empresas de propriedade de imigrantes - bares de tacos, lojas de imóveis, armazéns de bebidas e cafeterias - foi devastada pelos saques ocorridos naqueles dias de protesto e as revoltas que se seguiram. As rebeliões provocaram danos avaliados em US$ 350 milhões pela cidade, com mais de mil prédios destruídos ou danificados.

Agora, quase um ano depois, Minneapolis é um lugar consumido pelo desconsolo e pelo medo. Com o julgamento de Derek Chauvin, o policial acusado da morte de Floyd, chegando ao seu final, a cidade está inquieta, temendo que, se ele for absolvido, a cólera, o caos e a destruição novamente tomarão conta da cidade.

Na semana passada, com a comunidade consumida pelos depoimentos transmitidos pela TV, a região de 'Twin Cities' foi novamente abalada pela morte de Daunte Wright, abatido a tiros por uma policial quando dirigia seu carro e foi parado numa inspeção de rotina na comunidade de Brooklyn Center. Centenas de pessoas foram às ruas para protestar, mas embora dezenas de empresas tenham sido saqueadas e vandalizadas perto de Lake Street, a lavanderia de Patel foi poupada.

O pastor Brian Herron, da Zion Baptist Church, no bairro negro de Minneapolis, Near North, dirigiu-se à sua congregação no domingo em termos pessoais. Disse que a notícia de mais uma morte de uma pessoa por um policial lhe trouxe à lembrança a época em que, ainda menino, viajou com seu pai, também pastor, para a zona rural do Sul e viu como os negros eram tratados ali. “Fiquei traumatizado”, afirmou ele.

Sara Stamshror-Lott, terapeuta especialista em traumas que trabalha junto às comunidades de Minneapolis, disse que o julgamento e as emoções dolorosas que tem provocado entre negros que já sofreram com o policiamento abusivo vêm consumindo suas sessões de terapia.

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Um cliente pediu a ela na quarta-feira para passarem o tempo de consulta assistindo ao julgamento, transmitido pelas emissoras de TV locais. O cliente não queria acompanhar o caso sozinho, disse a terapeuta, mas ao lado que uma pessoa para suportar a dor provocada pelos depoimentos.

Quando não assiste ao julgamento com seus clientes, disse ela, eles conversam a respeito durante as sessões. “A vasta maioria dos meus clientes, diria que 95%, conversa comigo em cada sessão sobre o julgamento desde que ele teve início."

Os depoimentos foram concluídos; os argumentos finais foram marcados para esta segunda-feira e agora o caso irá a júri. À medida que a cidade aguarda a sentença, que deve ser dada esta semana, a sensação é que a vida parou - com as pessoas incapazes de imaginar o que ocorrerá depois que o júri composto por quatro mulheres e cinco homens anunciar sua decisão.

“Muitas pessoas estão imobilizadas, com medo”, disse Andre Marshall, diácono da Zion Baptist Church. Ele se diz otimista quanto ao resultado depois de ver as provas, mas mesmo assim “pessoalmente, eu temo uma absolvição”, afirmou.

Enquanto Patel limpava sua lavanderia, soldados da Guarda Nacional carregando rifles de assalto se posicionavam nas esquinas da rua vizinha. Os veículos blindados lembraram Patel do que se transformou seu bairro no ano passado: “uma zona de guerra”.

Enquanto isso ocorria, o irmão de Floyd, Philonise Floyd, estava no banco das testemunhas no tribunal no centro da cidade.

Os promotores, nas suas alegações durante as audiências que duraram mais de duas semanas, interrogaram uma série de testemunhas, incluindo pedestres que falaram com emoção quando presenciaram o assassinato de George Floyd.

Policiais também prestaram depoimento, afirmando que as ações de Chauvin violaram as políticas do departamento e especialistas médicos disseram que Floyd morreu asfixiado, com a garganta  pressionada pelo joelho do policial por mais de nove minutos.

A defesa do policial durou dois dias e apenas duas testemunhas foram chamadas: um especialista sobre uso de força que alegou que as ações de Chauvin foram apropriadas, e um médico que contestou a decisão do Estado de que a morte foi por asfixia, dizendo ter classificado a causa da morte como “indeterminada”.

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Se Chavin for considerado culpado, o veredito certamente será recebido com alívio. Mas ao mesmo tempo, qualquer comemoração pela condenação de um policial será comparada com a realidade das persistentes disparidades raciais que a morte de Floyd forçou Minneapolis a encarar de frente.

“Não é um caso único e pronto”, disse a terapeuta. “Mesmo que ele seja condenado, literalmente esse é apenas um fragmento muito inicial no sentido de toda uma reforma da justiça que precisa ocorrer, das escolas ao sistema prisional, o sistema de saúde, e tudo o mais. Esta será uma vitória, mas não significa que o sistema mudou”, disse ela.

Com as empresas na cidade fechadas provisoriamente, Patel disse que não agirá do mesmo modo, um gesto de desafio e esperança de que as coisas serão diferentes desta vez. No aguardo do resultado do julgamento, sua mulher, Pinkey, disse apenas: “Deus sabe o que vai acontecer em Minneapolis”./ TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

 

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