Lam Yik Fei/The New York Times
Lam Yik Fei/The New York Times

Sob Xi Jinping, China refaz Hong Kong à sua imagem e semelhança

Partido Comunista Chinês está reconstruindo o território, permeando seu caráter outrora vibrante e irreverente com sinais cada vez mais evidentes de sua vontade autoritária

Vivian Wang e Alexandra Stevenson / The New York Times, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2021 | 05h00

HONG KONG - A cada dia que passa, a fronteira entre Hong Kong e o restante da China diminui mais rapidamente. O Partido Comunista Chinês está reconstruindo esse território, permeando seu caráter outrora vibrante e irreverente com sinais cada vez mais evidentes de sua vontade autoritária. A própria textura da vida diária está sob ataque enquanto Pequim molda Hong Kong em algo mais familiar, mais dócil.

Os moradores agora congestionam as linhas diretas da polícia com denúncias sobre vizinhos ou colegas desleais. Professores foram instruídos a despertar nos alunos um fervor patriótico por meio de um conjunto de livros de 48 volumes chamado "Minha casa é na China". Bibliotecas públicas retiraram dezenas de livros de circulação, incluindo um sobre o ícone das lutas dos direitos civis nos EUA o reverendo Martin Luther King Jr. e o líder africano Nelson Mandela.

Hong Kong sempre foi uma improbabilidade. Era uma metrópole próspera em uma faixa de terra inóspita, um oásis das liberdades civis sob o domínio do punho de ferro. Uma ex-colônia britânica que retornou à China em 1997, a cidade era uma promessa das liberdades de expressão, de reunião e de imprensa inimagináveis ​​no continente, que foi devolvida em um acordo que Pequim chamou “Um país, dois sistemas.”

Mas sob o comando de Xi Jinping, o líder da China, o Partido Comunista se cansou dos duelos de identidade de Hong Kong. Para o partido, esses duelos tornaram a cidade imprevisível, levando-a até à beira da rebelião em 2019, quando protestos antigovernamentais eclodiram.

Agora, armado com a ampla lei de segurança nacional que impôs à cidade há um ano, Pequim está pressionando para transformar Hong Kong em outra de suas megacidades continentais: motores econômicos onde a dissidência é imediatamente sufocada.

“Pessoas de todas as esferas da vida em Hong Kong perceberam que 'um país' é o pré-requisito e fundação de ‘dois sistemas’”, disse Luo Huining, principal funcionário de Pequim em Hong Kong, este mês.

Hong Kong é agora uma montagem de cenas desconhecidas e, para muitos, inquietantes. Policiais foram treinados para marcharem no estilo militar chinês, substituindo décadas de marchas no estilo britânico. Líderes da cidade regularmente denunciam “elementos externos” empenhados em minar a estabilidade do país.

Altos funcionários em Hong Kong se reuniram, com as mãos direitas levantadas, para prometer fidelidade ao país, assim como os burocratas do continente são regularmente chamados a "biao tai", expressão em mandarim para a expressão "declarar sua posição".

Quando o governo ordenou aos funcionários comuns que assinassem uma versão escrita do juramento, H.W. Li, um civil funcionário há sete anos, renunciou.

Os novos requisitos não requerem meramente demonstrações de lealdade; eles também avisam sobre rescisão ou outro tipo vago de consequências se eles forem violados. Li tinha ouvido alguns supervisores importunando seus colegas para preencherem o formulário certo embora, disse ele, e os funcionários competiam para dizer quem foi o mais rápido para obedecer a ordem.

“As regras que deveriam proteger a todos - como funcionários e também como cidadãos - estão sendo enfraquecidas”, disse Li.

Em alguns cantos da sociedade, as regras foram totalmente reescritas. Mas Pequim nega que esteja renegando sua promessa a Hong Kong, insistindo que a está reforçando.

Quando a China reformou o sistema eleitoral de Hong Kong para eliminar candidatos que considerou desleais, Pequim chamou a mudança de aperfeiçoamento do sistema eleitoral de Hong Kong. Quando o Apple Daily, um grande jornal pró-democracia, foi forçado a fechar depois que a polícia prendeu seus principais executivos, o partido disse que a publicação abusou da “chamada liberdade de imprensa". 

Quando dezenas de políticos da oposição organizaram as primárias eleitorais informais, as autoridades chinesas os acusaram de subversão e os prenderam.

O poder da China é agora tão onipresente que Chan Tat Ching, antes um herói do movimento pela democracia de Hong Kong, passou todo o ano passado pedindo aos amigos que não desafiassem Pequim.

Três décadas atrás, após o massacre da Praça Tiananmen em 1989, Chan, um empresário de Hong Kong, ajudou a liderar uma operação que levava estudantes e acadêmicos clandestinamente para fora do continente.

Mas Pequim está mais sofisticada agora do que em 1989, disse Chan, e intimidou Hong Kong mesmo sem enviar tropas.

Ele admitiu que a lei de segurança foi aplicada com muita severidade, mas disse que havia pouco que alguém pudesse fazer. “Alguns jovens não entendem. Eles acham que o Partido Comunista é um tigre de papel”, disse ele. "O partido comunista é um tigre de verdade.”

O novo poder da China também se declarou no mundo dos negócios de Hong Kong. Por décadas, a economia do continente teve de correr para alcançar a de Hong Kong, o centro financeiro tão orgulhoso de sua identidade global que seu governo a chamou de "cidade mundial da Ásia".

Agora, a economia da China está crescendo e as autoridades estão absorvendo cada vez mais a identidade global de Hong Kong dentro do país. 

Empresas estatais chinesas estão se mudando para escritórios recentemente desocupados por bancos estrangeiros no icônico bairro de arranha-céus de Hong Kong. Em novembro, a Meituan, uma gigante chinesa do fornecimento de comida, expulsou a Swire, um conglomerado britânico, do principal índice de ações da cidade. Os analistas financeiros consideraram isso o fim de uma era.

A corrida do dinheiro do continente trouxe algumas novas condições. Depois que Pequim decretou que apenas "patriotas" poderiam se candidatar a cargos em Hong Kong, o Banco da China International - uma instituição estatal - postou um anúncio de emprego para um cargo de diretor que dizia os candidatos devem “amar o país”.

O governo central está tentando convencer os habitantes de Hong Kong de que as compensações valem a pena em troca da promessa de prosperidade do continente. As autoridades estão incentivando os jovens de Hong Kong a estudar e trabalhar nas cidades chinesas de Shenzhen e Guangzhou, declarando que quem não for corre o risco de perder oportunidades.

Tendo crescido em Hong Kong, Toby Wong, de 23 anos, nunca pensou em trabalhar no continente. A mãe dela veio da China continental décadas antes para trabalhar. Os salários lá eram consideravelmente mais baixos. Mas recentemente, Wong viu um anúncio de metrô promovendo aberturas em Shenzhen, com o governo de Hong Kong prometendo subsídios de quase US$ 1.300 em um salário mensal de US$ 2.300 - muito mais alto do que muitos cargos básicos no território.  

O trem de alta velocidade entre as duas cidades significava que ela poderia voltar nos fins de semana para ver sua mãe, a quem Wong deve apoio financeiro. Wong candidatou-se a duas empresas chinesas de tecnologia. “Esta não é uma questão política”, disse ela. “É uma questão prática.”

Eventualmente, o governo espera tornar isso uma motivação política. No centro da campanha de Pequim está um impulso para criar gerações futuras que nunca pensarão em separar os interesses do partido dos seus próprios.

O governo de Hong Kong publicou centenas de páginas de novas diretrizes curriculares destinadas a ensinar o “afeto ao povo chinês". As aulas de geografia devem afirmar o controle da China sobre as áreas disputadas do Mar do Sul da China. Alunos de até 6 anos aprenderão os crimes da lei de segurança.

Lo Kit Ling, que ensina um curso de educação cívica no ensino médio, agora tem o cuidado de dizer apenas coisas positivas sobre a China em sala de aula. Embora ela sempre tenha tentado oferecer várias perspectivas sobre qualquer assunto, disse que agora se preocupa que uma visão crítica possa ser citada fora do contexto por um aluno ou pai.

O tema tratado por Ling é especialmente tenso; os líderes da cidade a acusaram de envenenar a juventude de Hong Kong. O curso encorajou os alunos a analisar criticamente a China, ensinando os sucessos econômicos do país ao lado de tópicos como a repressão da Praça Tiananmen

As autoridades ordenaram que o assunto fosse substituído por uma versão truncada que enfatizasse o positivo. “Não é ensino”, disse Ling. "É como uma espécie de lavagem cerebral.” Em vez disso, ela vai dar uma aula eletiva sobre estudos de hospitalidade.

As crianças em idade escolar não são as únicas a serem solicitadas a vigiar os dissidentes. Em novembro, a polícia de Hong Kong abriu um linha direta para denúncias suspeitas de violações da lei de segurança. Um oficial aplaudiu recentemente os residentes por ter deixado mais de 100 mil mensagens em seis meses. Esta semana, a polícia prendeu um homem de 37 anos e o acusou de sedição, após receber relatos de que adesivos colados no portão de um apartamento potencialmente violavam a lei de segurança.

O monitoramento constante através da vizinhança de informantes é uma das ferramentas mais eficazes do Partido Comunista de controle social no continente. É projetado para dissuadir pessoas como Johnny Yui Siu Lau, um locutor de rádio em Hong Kong, de ser tão livre em suas críticas à China.

Lau disse que um produtor lhe contou recentemente que um ouvinte o denunciou à autoridade de transmissão. “Será uma competição ou uma luta, como o povo de Hong Kong pode proteger a liberdade de expressão”, disse Lau.

Outras liberdades que estavam no cerne da identidade de Hong Kong estão desaparecendo. O governo anunciou que iria censurar filmes considerados perigosos para a segurança nacional. Algumas autoridades exigiram que as obras de arte de dissidentes como Ai Weiwei fossem proibidas de entrar em museus.

Ainda assim, Hong Kong não é apenas mais uma metrópole continental. Moradores se mostraram ferozmente indispostos a renunciar à liberdade, e alguns correram para preservar relíquias de uma identidade discreta de Hong Kong.

As máscaras marcadas como “made in Hong Kong” cresceram em popularidade. Uma boy band local, Mirror, tornou-se uma fonte de esperança e orgulho em meio a um ressurgimento do interesse pela música pop.

No ano passado, Herbert Chow, dono da Chickeeduck, uma rede de roupas infantis, instalou uma estatueta de 2,1 metros de um manifestante - uma mulher usando uma máscara de gás e hasteando uma bandeira de protesto - e outra arte de protesto em suas lojas.

Mas Chow, de 57 anos, está sob pressão dos proprietários dos imóveis das lojas, vários dos quais se recusaram a renovar seus aluguéis. 

Havia 13 lojas Chickeeduck em Hong Kong no ano passado - agora são 5. Ele disse que não tinha certeza de quanto tempo sua cidade poderia continuar resistindo às invasões de Pequim. “Medo - pode torná-lo mais forte, porque você não quer viver sob o medo”, disse ele. Ou “isso pode matar seu desejo de lutar."

 

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