Sobre armas e gansos

Medidas de Obama são modestas e não devem resolver a epidemia de violência nos EUA, mas deverão reduzi-la

NICHOLAS, KRISTOF, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA, NICHOLAS, KRISTOF, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA, O Estado de S.Paulo

18 de janeiro de 2013 | 02h07

Análise

Quando estou no exterior e falo da paixão dos americanos por armas, às vezes, as pessoas tiram uma conclusão que me deixa horrorizado: a vida não vale nada nos EUA. Barack Obama acaba de anunciar medidas para o controle de armas para mostrar que nós valorizamos a vida.

Mas o destino das propostas depende dos americanos de centro, hoje divididos. Eles também se preocupam com o preço que pagamos pela posse de armas, mas acham que o fato de ter uma Glock nos faz sentir mais tranquilos quando ouvimos um barulho no andar debaixo da casa. Portanto, gostaria de contar aos que ainda não têm uma opinião formada a história de um ganso.

Cresci numa fazenda em Yamhill, Oregon, vila rural onde toda casa tem uma arma. Aos 12 anos, meu pai me deu um rifle calibre 22 e fiz um curso de tiro na Associação Nacional do Rifle (NRA). Entendo a paixão por armas. Uma fazenda precisa de uma ou duas contra os coiotes que adoram carneiros e, francamente, elas são um bom passatempo. Mas elas não garantem nossa segurança. Certa vez, demos um ganso de presente a um vizinho. Ele gostava de andar até a propriedade de outro vizinho e de pular no bebedouro das ovelhas. O dono das ovelhas se enfurecia porque a ave sujava a água. Certa vez, ficou tão irritado que ameaçou matar o ganso. Como tinha uma arma à mão, a puxou e mirou na direção do bicho. Vendo isto, o dono do ganso, que tinha ido buscar a ave, quis proteger sua propriedade e também puxou sua arma. Quase chegaram às vias de fato em razão de um ganso.

Nossos vizinhos eram boas pessoas, respeitavam a lei, mas suas armas os levaram a um perigoso confronto. Talvez a NRA afirme que as armas não matam pessoas, são os gansos que matam. Mas, na ausência de armas de fogo, eles não teriam se ameaçado reciprocamente com machados ou martelos.

A esposa do dono das ovelhas conseguiu chamar os dois à razão. O bom senso predominou, o ganso sobreviveu e os vizinhos também. Mas eu me lembro do caso porque ele evidencia a função que as armas desempenham na nossa sociedade: não com a finalidade de proteger, mas de intensificar as reações.

Um estudo do Southern Medical Journal, de 2010, concluiu que uma arma provoca mais frequentemente a morte do membro de uma família do que de um ladrão. Outro estudo, de 1993, mostrou que a posse de uma arma representa um risco quase três vezes maior de homicídio na casa do dono. Vários americanos são como Nancy Lanza, que pensou que uma arma garantiria sua segurança, mas acabou assassinada por ela. A NRA está certa quando afirma que a maioria das armas é usada com segurança, mas também é verdade que é mais provável que elas causem tragédias do que as evitem.

Obama afirmou que, desde Sandy Hooke, houve 900 mortes violentas por armas - um erro. Talvez ele se referisse apenas a homicídios por arma de fogo. No entanto, ele deveria incluir também os suicídios com arma de fogo, que são ainda mais comuns e podem ser considerados mortes violentas por armas de fogo.

O Centro para o Controle e Prevenção de Doenças calcula que, a cada ano, ocorrem mais de 11 mil homicídios e 19 mil suicídios por armas de fogo. Ou seja, anualmente, nos EUA, ocorrem 30 mil mortes por armas de fogo. A média implica que, desde Sandy Hook, já houve 2,5 mil mortes violentas. Segundo David Hemenway, especialista em saúde pública de Harvard, ter uma arma em casa aumenta de duas a quatro vezes o risco de ocorrer um suicídio numa casa.

Para reduzir o número de mortes em acidentes rodoviários, adotamos medidas como a verificação da carteira de habilitação, airbags, cinto de segurança e licenciamento do veículo. O resultado é um declínio das mortes em acidentes de modo que, em breve, pela primeira vez na história dos EUA, as mortes por armas de fogo superarão as que ocorrem por acidentes de carro.

Não há soluções mágicas para a carnificina que as armas provocam. Mas, assim como tornamos a direção de um carro mais segura, Obama elaborou medidas modestas, que não resolverão a epidemia de violência nos EUA, mas deverão reduzi-la. Se conseguirmos reduzir as mortes em 25%, significará que, em um ano, poderemos salvar a vida de 7,5 mil pessoas. A não ser que, nos EUA, a vida realmente não tenha nenhum valor, é um esforço que vale a pena. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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