Sobre armas e patos

Reduzir o estrago feito por atiradores ensandecidos é possível sem afetar os sagrados hábitos de caça e pesca

Gail Collins, The New York Times, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2012 | 03h07

NOVA YORK - Tivemos um tiroteio perto do Empire State Building. Um ex-empregado injuriado de uma empresa de confecções matou seu ex-colega e tratou de ser morto pela polícia. Exceto pelo local famoso, a verdade é que não foi nenhuma história sensacional. Lembram a matança no depósito de madeira na Carolina do Norte no começo deste ano, ou aquele em outubro na fábrica de cimento da Califórnia? Não? Ninguém mais lembra, exceto as famílias enlutadas.

Nove pedestres também foram feridos - a polícia admitiu ser a responsável pelos disparos. Isso não deve surpreender. Só em filmes as pessoas são boas atiradoras num confronto violento. Em 2008, Al Baker reportou ao New York Times que o índice de precisão de policiais de Nova York disparando no cumprimento do dever foi de 34%.

E eles são pessoas treinadas para esse tipo de crise. A moral da história é que se um lunático começar a atirar, você não estará seguro se os seus concidadãos médios estiverem portando armas escondidas.

Não é essa a sabedoria aceita em muitas partes dos EUA (certamente não no Congresso, onde a segurança é citada como razão para permitir que veranistas entrem com revólveres carregados em parques federais). Pouco depois da matança no cinema do Colorado, eu estava aguardando um avião num pequeno aeroporto em Dakota do Norte, ouvindo um grupo de trabalhadores da indústria de petróleo discutir quantas vidas teriam sido salvas se os outros frequentadores do cinema estivessem armados. "Eles poderiam ter cortado o mal pela raiz", disse um deles confidencialmente a outro.

Imagine só o que teria havido se, em vez de se atirar no chão, um grupo daqueles frequentadores de cinema tivesse se levantado e começado a atirar no escuro. Ou pergunte a um guarda.

Os EUA jamais terão uma política nacional saudável sobre armas até que os defensores dos arsenais desistam da fantasia de que a melhor proteção contra psicopatas armados inclinados à violência aleatória são pessoas comuns com armas carregadas na cintura.

Haverá alguma coisa que o outro lado possa conceder em troca? Bem, os defensores do controle de armas precisam ter o cuidado de não dizer nada que deprecie a caça. Virtualmente todo político dos Estados Unidos já recebeu essa mensagem (vide o senador Chuck Schumer segurando faisões mortos). Mas é verdade que alguns citadinos podem ser ranhetas sobre esse ponto. "Não se mexe com caça e pesca porque isso faz parte do que somos", diz Kathy Cramer Walsh, uma professora da Universidade de Wisconsin especializada em engajamento civil. "Muitas vezes, a conversa sobre regulamentar armas e munições é vista como uma tentativa de fora de mudar quem somos." Estive pensando em armas e Wisconsin ultimamente, especialmente depois que Paul Ryan, um grande fã da teoria de segurança pública "armem o mundo", foi escolhido vice de Romney na disputa presidencial.

Wisconsin tem algumas das leis sobre armas menos restritivas do país (o Brady Center to Prevent Gun Violence lhe dá 3 pontos em 100 possíveis). Evidentemente, o lugar foi também cenário de um terrível assassinato em massa por Wade Michael Page num templo Sikh perto de Milwaukee.

Page levava um pente de alta capacidade que lhe permitiu disparar pelo menos 17 vezes antes de recarregar. Esses pentes tendem a ser um tema comum em nos piores incidentes de assassinatos em massa. O atirador no shopping center em Tucson onde a deputada Gabrielle Gifford foi baleada levava um que comportava mais de 30 balas. O atirador no cinema do Colorado tinha um pente com cem balas.

Os pentes eram ilegais até o Congresso americano não renovar a proibição de armas de assalto. Livrar-se delas novamente não acabaria com os assassinatos em massa, mas limitaria o número de vítimas. E não é preciso um pente de alta capacidade para caçar. Aliás, muitos Estados os proíbem para a caça porque não querem que uma pessoa abata um rebanho inteiro. Pela legislação federal, só se pode usar armas com uma capacidade máxima de três balas na caça de aves migratórias. Mesmo a facção mais irresponsável da Associação Nacional do Rifle (ANR) parece disposta a acatar isso.

"Caçar é diferente", disse Jeff Nass, presidente da Wisconsin Force, uma associada da ANR.

"Os patos e gansos não podem devolver o tiro." Para Nass, as matanças não ocorrem porque lunáticos têm acesso a armas que lhes permitem atingir um grande número de pessoas em segundos. "As matanças ocorrem porque ninguém ali está se defendendo", disse ele. "A solução é a autodefesa."

De modo que o sujeito seguindo de carro para o templo Sikh com o pente de alta capacidade em sua arma estava legal até começar a atirar. O sujeito escondido numa moita na espreita dos patos, não. Pensem nisso. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

* É COLUNISTA

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