Sobre chacinas e interesses

O infame massacre perpetrado por soldados de Bashar Assad em Hula fará europeus e americanos saírem da letargia e quase hipnose que os paralisa, enquanto diariamente o Exército sírio mata a população em Damasco, Alepo e Homs? Os assassinatos de Hula tiveram pelo menos um efeito: potências mundiais chamaram de volta seus embaixadores em Damasco. A França pretende ir mais longe e instaurar um processo no Tribunal Penal Internacional contra a Síria.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

30 Maio 2012 | 03h07

A diplomacia de François Hollande será mais audaciosa que a de Nicolas Sarkozy? No momento, não há tal pretensão. Sarkozy sentiu náuseas com esses crimes de Estado. Mas Hollande, como Sarkozy, sabe como é perigoso tocar na Síria.

O chanceler Laurent Fabius, em sua primeira entrevista, referiu-se aos obstáculos. Principalmente dois: o bloqueio de medidas no Conselho de Segurança da ONU por russos e chineses. Além disso, nenhum Estado deseja uma operação terrestre em razão da força de Damasco e dos riscos de incendiar o Oriente Médio, a começar pelo Líbano (o Irã é aliado da Síria e hoje foi informado que iranianos lutam ao lado dos sírios).

Podemos esperar que a Rússia ceda? Do lado de Vladimir Putin nada de flexibilidade, mesmo que ele deplore os massacres. Mas a Rússia tem uma vantagem: é dirigida por duas cabeças, Putin, um duro, adepto da caça ao tigre e esportes viris, e o premiê Dmitri Medvedev, mais maleável, mais diplomata.

Infelizmente, o peso de Putin sobre os assuntos russos é muito maior do que o de Medvedev. Ora, no G-20, no México, no final de junho, será ele quem falará em nome da Rússia. E Putin foi formado sob o império comunista, nos serviços especiais sempre mais propensos a usar meios rápidos para afastar os imbecis que atravessavam seu caminho do que a negociar.

Mas Putin sabe que seu protegido Assad sem dúvida será derrubado. E como a Síria é o último bastião da influência russa no Oriente Médio, deve pensar nos interesses russos na hipótese de uma Síria pós-Assad.

Como explicar essa teimosia de Putin que liquida com todos os esforços da comunidade internacional? O argumento que circula em Moscou é que Putin não desfruta mais da enorme popularidade anterior. Essa é a chave da sua obstinação em apoiar Assad: Putin tem pavor de uma "primavera russa", à imagem da Primavera Árabe que derrubou governos no Egito, Líbia e Tunísia. E está convencido, dizem os moscovitas, de que Washington e os países do Ocidente trabalham em silêncio, preparando uma "primavera russa". /TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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