Sobre linhas vermelhas

Como aliados e adversários reagem às promessas não cumpridas dos EUA na Síria

Ray Takeyh*, O Estado de S.Paulo

23 Setembro 2013 | 02h09

Credibilidade é uma palavra valorizada em política internacional.

Países que cumprem suas promessas e fazem valer suas linhas vermelhas inspiram confiança de que deterão seus inimigos e protegerão seus aliados. As nações, como os seres humanos, criam reputações e não é possível confiar naqueles que quebram suas promessas.

E como os Estados Unidos não bombardearam a Síria, o Irã se sentirá mais encorajado e reforçará seu programa com vistas à produção de armas nucleares. O único problema dessas afirmações é que a história nos sugere que a chamada credibilidade se baseia num conceito intelectual muito frágil.

Os inimigos dos EUA valorizam mais o poderio militar americano do que a sua determinação. Mas os aliados dos EUA provavelmente serão mais sensíveis às intenções americanas do que ao seu poder de fato. Nesse sentido, o que ocorreu nas últimas semanas teve mais impacto sobre Israel do que sobre o Irã.

A aplicação mais trágica do argumento da credibilidade pelos Estados Unidos foi na guerra do Vietnã. Durante o envolvimento americano no sudeste asiático, que durou um quarto de século, jamais afirmou-se que o Vietnã em si era relevante para a segurança dos EUA. Apenas que, se não impedissem o avanço do comunismo, isso fortaleceria a União Soviética.

Os Estados Unidos combateram nas selvas vietnamitas para provar ao Kremlin que, quando traçam suas linhas vermelhas, usam toda a sua força para alcançar seus objetivos. Numa das ironias da história, o fracasso dos esforços americanos no Vietnã foi acompanhado, uma década e meia depois, pelo colapso da União Soviética.

No Irã, os guardiães do Estado teocrático são homens astutos que detectam as sutilezas do poder. Embora desabridos em seus pronunciamentos públicos e corajosos em se tratando de suas aventuras no Oriente Médio, os militares iranianos respeitam a armada dos EUA reunida ao seu redor.

Sabem muito bem que Washington quer impedir uma proliferação na crítica região do Golfo. E sabem que os EUA têm poder militar para destruir sua infraestrutura nuclear. É esse raciocínio, mais do que a reticência dos EUA na Síria, que tem maior peso para os mulás. Mas se o Irã respeita o poderio americano, como explicar sua truculência nuclear? Simplesmente porque Teerã reconhece a realidade da força americana isso não quer dizer que está disposto a acatar suas ordens. Os líderes clericais têm sua própria versão de política de duas vias para frustrar um ataque americano.

De um lado apontam sua capacidade de dissuasão - aliados terroristas, como o Hezbollah, são enfatizados e a possibilidade de infligir danos ao pessoal diplomático e militar americano é sutilmente lembrada. Ao mesmo tempo, o Irã enredou os EUA num prolongado processo diplomático que retardou uma resposta militar. A via diplomática do Irã tem sido complementada por uma "ofensiva de charme", que sublinha a disposição de firmar um acordo reciprocamente satisfatório.

É muito difícil para Washington justificar um ataque contra o Irã diante da probabilidade de retaliação e a aparente disposição de Teerã de solucionar o problema na mesa de negociações. Assim, se para o Irã o fato de os americanos não terem bombardeado a Síria teve impacto moderado nos seus cálculos, para Israel deve limitar a resposta ao imbróglio nuclear iraniano.

Para os israelenses, como para as pequenas potências ao avaliarem a confiabilidade da superpotência protetora, intenções são mais importantes do que capacidade militar. Não é o poder militar dos EUA, mas sua disposição em usá-lo que impressiona aliados.

O que os israelenses têm observado ultimamente é uma Washington que, diante da violação da sua linha vermelha quanto ao uso de armas de destruição em massa, acolhe a iniciativa russa no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Não existem duas entidades com menos credibilidade em Jerusalém sobre o problema das armas não convencionais do que Rússia e Nações Unidas.

O primeiro ministro Binyamin Netanyahu e seus belicosos assessores podem assim concluir que qualquer solução efetiva da crise iraniana exigirá que Israel atue sozinho. As probabilidades de um bombardeio israelense contra as instalações do Irã agora só aumentaram.

O atual melodrama sírio mostra como raramente lições fornecidas pela História permeiam deliberações governamentais. Essa ideia de que é preciso bombardear Damasco para impressionar o Irã indica pouca visão estratégica e nenhuma base analítica.

Existem muitas justificativas para o uso da força contra um regime que lançou armas químicas contra cidadãos desarmados. E a tragédia da guerra civil síria há muito tempo clama por um esforço internacional mais determinado. Contudo, ao avaliar os efeitos da recente crise temos de concluir que seu impacto será sentido mais em Israel do que no Irã.

*Ray Takeyh é membro do Council on Foreign Relations.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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