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Sobrevivência da UE

Muitos rezam para que a saída do Reino Unido seja mal sucedida para dar uma chance ao bloco

Gilles Lapouge*, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2017 | 05h00

O Brexit pegou a estrada. Mas atenção: isso não significa que a Grã-Bretanha não esteja mais na União Europeia. Significa que o processo de divórcio começou, e vai durar ao menos dois anos. Nesse período, o Reino Unido continuará sendo parte da UE. Pelas negociações em Bruxelas, Londres não terá direito, entre outras coisas, de assinar acordos particulares de comércio com outros países.

Dois anos é o mínimo. Quando se pensa na complexidade dos laços que uniram o Reino Unido e a Europa nos últimos 44 anos, sente-se uma grande vertigem. Os negociadores passaram muitas noites em claro para desembaraçar esse entrelaçamento cujas ramificações infinitas abrangem a política e a economia - ou, simplificando, os direitos civis. É um trabalho digno da pobre Penélope, mulher de Ulisses, que passava as noites a desmanchar o que havia tecido de dia.

As negociações serão ainda mais delicadas tendo em vista a teimosia dos britânicos. Já derrotaram Joana d’Arc, Napoleão, Hitler. Os negociadores de Bruxelas estão prevenidos. Não será um passeio.

Um exemplo: é preciso fazer a conta do divórcio. Calcula-se que os compromissos financeiros assumidos pelo Reino Unido no quadro do orçamento europeu cheguem a ¤ 60 bilhões. Seria ingênuo imaginar que Theresa May vá dizer aos europeus: “¤ 60 bilhões? Sem problema. Toma o cheque”. Muitos brigões britânicos já estão dizendo que não vão pagar nada. May diz que vai pensar. 

Falemos das pessoas. Em 40 anos de vida comum, ocorreram enormes mudanças populacionais. Alguns milhões (fala-se em 3 milhões) deixaram o Velho Continente para trabalhar no Reino Unido. O mesmo ocorreu em sentido contrário: mais de 1 milhão de britânicos se instalaram em países da UE. Ignorar sua sorte, por vezes sua angústia, seria imoral e perigoso. Ainda ontem, quatro grandes jornais europeus (Le Monde, The Guardian, La Vanguardia e Gazeta Wyborcza) pediram um acordo que garanta os direitos dessas pessoas.

Somem-se três outros problemas, todos do lado britânico, mas cujas reverberações afetarão a UE. Primeiro deles, no referendo de julho de 2016, 48% dos britânicos votaram contra o Brexit. Entrarão todos na oposição? Segundo e terceiro problemas: dois países que fazem parte do Reino Unido votaram contra a saída. São eles a Irlanda do Norte, que tendo votado pela permanência na UE enfrenta uma grave crise política, e a Escócia, que quer convocar um plebiscito sobre sua independência para que, desligando-se do Reino Unido, possa continuar na UE. Vale dizer que os negociadores do Brexit (britânicos e europeus) ignoram tanto os contornos da futura Europa quanto os do futuro Reino Unido.

Outro ponto de discórdia é que Londres tem a ideia fixa de manter o acesso ao mercado único (a única coisa que sempre a interessou na UE) sem, contudo, sujeitar-se à livre circulação de pessoas - o Brexit tem um forte perfume de xenofobia. Os europeus rejeitam essa solução. Guy Verhofstadt, negociador do Parlamento Europeu para o Brexit, foi claro:

“As quatro liberdades (livre circulação de pessoas, de mercadorias, de serviços e de capitais) são indissociáveis. Se o Reino Unido rejeita a livre circulação e a competência do Tribunal de Justiça europeu, não terá mais, em consequência, acesso ao mercado interno europeu. Da mesma forma, se Londres quiser pode negociar seus acordos de livre-comércio, mas não poderá permanecer, como deseja fortemente, na união alfandegária europeia (...) O Reino Unido quer os direitos sem aceitar os deveres da contrapartida. Sobre esses pontos, a UE se mostrará inflexível.”

São previsíveis outros estragos, dos quais ainda não dá para avaliar a gravidade. Ninguém duvida de que a economia britânica vai sofrer com a ruptura com a UE. Prevê-se que sua moeda perderá de 20% a 30% do valor.

Seu comércio sofrerá um abalo violento, pois Londres vende e compra principalmente no âmbito dos países do Velho Continente. O mesmo está previsto para a Europa: a Grã-Bretanha é um mercado prioritário para seus produtos. O fluxo comercial, é claro, não vai parar, mas sofrerá um forte choque, uma mudança de estrutura. Com a economia britânica atravessando um período crítico, o comércio dos países europeus também será perigosamente afetado.

Mas, além das complicações jurídicas, dos perigos econômicos e financeiros, o Brexit reserva outros venenos para os países da UE. Quais? O principal é a sedução. Oprimidos pelas falhas, cargas, imbecilidades, burocracia, cegueira dos funcionários de Bruxelas, vários segmentos sociais europeus sonham em sair da UE. É o caso, por exemplo, dos agricultores franceses, que dizem estar profundamente angustiados com a Europa.

Outro pecado da UE, para grande parte dos europeus, é que Bruxelas luta contra a xenofobia, rejeita fechar suas fronteiras, deixa-se submergir sob o fluxo de migrantes, etc. A xenofobia, o racismo mais abjeto que reina em grande parte da União Europeia, não suporta isso. Os britânicos, agora, podem erguer barreiras contra os estrangeiros. Toda a extrema direita europeia, todo o racismo europeu, olham para Londres com inveja. Isso é particularmente verdadeiro nos países da Europa Oriental, mas também na Holanda e, naturalmente, na França, na Áustria, etc. É o que chamo de “efeito sedução do Brexit sobre a opinião pública europeia”. 

Dentro de algumas semanas todas as capitais da Europa voltarão os olhos para a França, onde serão realizadas eleições presidenciais, com o temor de que Marine Le Pen seja vitoriosa e se instale no Palácio do Eliseu. Uma perspectiva terrível, pois Le Pen tem um ódio genético dos estrangeiros.

Por esse motivo, e também por patriotismo econômico, a primeira tarefa de Le Pen como presidente será convocar um referendo para a saída do país da UE. E é claro que, se a França deixar o bloco, a Europa será mortalmente atingida. Sobreviverá, mas será uma Europa estranha, que uniria a Alemanha com os já enfermos espanhóis e italianos, os fascistas poloneses e os “incompetentes” gregos.

No momento, o Brexit ainda não surtiu um efeito positivo para os eurocéticos. O fato é que as implicações do Brexit ainda não são visíveis. É hora de prudência. No futuro, a história será diferente: se o Reino Unido for mal sucedido e sua economia afundar, então a União Europeia estará salva, pelo menos por algum tempo.

Se, ao contrário, ele aguentar o choque do Brexit e reencontrar seu vigor, então a sobrevivência da UE estará diretamente ameaçada.

Podemos imaginar que alguns partidários da UE rezem em segredo para o Reino Unido ser fustigado pelo Brexit, perder alguns dentes, começar a tossir, cair mortalmente doente, quebrar uma perna, um nariz ou um braço, enfim, suportar mal o Brexit. Diante dos eurocéticos ele faria o papel de um espantalho. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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