Sobrevivente conta como foi explosão na ONU em Bagdá

"Foi como estar em um terremoto". É assim que o inglês David Navarro, um dos sobreviventes do ataque contra a sede da ONU em Bagdá, caracteriza o momento do atentado que matou o brasileiro Sérgio Vieira de Mello. Navarro, médico e coordenador da Organização Mundial da Saúde (OMS) para o Iraque, estava em uma reunião um andar abaixo de onde estava Vieira de Mello na hora do ataque e, ontem, já em Genebra, fez um relato emocionado do que ocorreu dentro do edifício e de como tentou ajudar os feridos.Navarro conta que chegou ao edifício da ONU pouco antes das 16h00 (11h00 de Brasília). O ataque ocorreu 35 minutos depois. "Eu tinha uma reunião para falar sobre a reconstrução de hospitais em uma sala muito próxima à de Sérgio Vieira de Mello. Acabamos mudando de sala no último momento porque queríamos ficar mais próximo de onde havia café",afirmou o médico, que tinha uma outra reunião marcada para o mesmo dia com uma das vítimas do atentado. No momento da explosão, Navarro conta que a sensação era de que um trovão tinha atingido o prédio ou que um terremoto dos mais fortes havia atingido a região. "Parecia que eu havia levado um golpe pelas costas. Do outro lado da mesa onde eu estava, ví um de meus colegas com um pedaço de vidro em sua cabeça. As luzes foram cortadas e poeira e um cheiro de queimado muito forte tomou conta do interior do prédio. Após alguns segundos, voltou o silêncio, seguido de gritos de desespero, que não paravam", disse. O médico conta que, assim que puderam, ele e seus colegas que estavam na sala de reunião tentaram sair do prédio. "Tive tempo para buscar meu celular, que havia caído no chão, pois achava que seria importante. Quando abrimos a porta, o que vimos nos corredores foi impressionante e começamos a entender que a explosão havia sido grande", afirmou."Ví um homem deitado no corredor com algo atravessado no pulmão. Ele não conseguia respirar e não parava de sangrar. Já na porta de saída vimos alguns mortos e outros que estavam morrendo e tentávamos salvar. Lembro-me de ver pessoas com os rostos completamente desfigurados. Outro sem os lábios. Éramos apenas quatro médicos dentro do prédio e minha preocupação era de que as equipes de resgate demorassem para chegar. Felizmente, em pouco tempo, os militares americanos estavam com todo seu equipamento no local", disse o médico, que lembra que até agora dois corpos estão irreconhecíveis pela explosão.Segundo ele, foi nesse momento que percebeu que ninguém tinha visto Sérgio Vieira de Mello. "Corremos para o lado do prédio onde estava a sala de Vieira de Mello e alguns de nós começamos a retirar os escombros. Ouvíamos a voz de Sérgio. Alguns segundos depois chegaram os soldados, que ficaram encarregados desse trabalho, que era delicado. A ONU e os militares americanos fizeram de tudo para salvar o brasileiro Sérgio Vieira de Mello, isso pudemos ver", concluiu Navarro.

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