Sobrevivente do 11 de setembro diz que aprendeu com tragédia

Na manhã do dia 11 de setembro de 2001, o engenheiro carioca André Kamikawa estava no escritório da corretora de investimentos na qual trabalhava, no 25º andar da Torre Norte do World Trade Center, quando ela foi atingida por um Boeing 767. "Não tinha a menor idéia do que fosse aquilo. Pensei que uma bomba tivesse explodido. O estrondo foi tão forte que o prédio todo começou a tremer", relembra. Quando finalmente conseguiu chegar à rua, André conta que o cenário de destruição que presenciou lembrava o de um filme-catástrofe. "Havia um mini-shopping no térreo do WTC cujo teto havia sido destruído e todas as suas vidraças quebradas. Todo mundo corria na mesma direção. Parecia um filme de Spielberg, mas eu só não sabia se o filme ia acabar bem ou mal." André escapou ileso da tragédia, mas perdeu muitos amigos, brasileiros e estrangeiros, no atentado. Ele voltou a viver no Brasil, mas nesta semana retornou a a Nova York a negócios. Ele aproveitou a visita para visitar o local que abrigava as torres. André costuma lembrar da vista de Nova York com as duas torres sempre que vislumbra a paisagem do outro lado do rio Hudson, a partir de New Jersey, onde está hospedado. "É um choque tão grande. Parece um enorme pesadelo. É tão estranho ver que aquelas torres foram simplesmente deletadas. É inconcebível que o World Trade Center não faça mais parte da paisagem de Nova York." Há cinco anos, minutos após ter conseguido descer as escadas do WTC, André conta ter se perguntado: "Como é que eles vão fazer para consertar isso?". Até então, a idéia de que as duas torres iriam ao chão não havia passado por sua cabeça. André conta que hoje não guarda traumas. Após a tragédia, no entanto, teve um mês de noites de insônias e pesadelos constantes. Por muito tempo, se sentia nervoso sempre que estava a bordo de um avião e o vôo apresentava turbulência. O engenheiro diz que não foi a experiência traumática que o fez retornar ao Brasil e afirma não se sentir mais inseguro em Nova York do que em sua cidade natal. "Algo ruim e imprevisível pode acontecer em qualquer lugar, pode ser no Rio ou em Nova York." André conhecia dois dos quatro brasileiros que morreram no World Trade Center. Ele havia trabalhado com eles e muito provavelmente teria sido uma das vítimas fatais se não houvesse trocado de emprego um ano antes da tragédia. "Eu costumava trabalhar no mesmo escritório que eles, no 86º andar da Torre Sul. Mudei de emprego e fui para o 25º piso da outra torre. Quando soube o que aconteceu com eles, eu me perguntava, por que eles e não eu? Bate um remorso, você lembra das desavenças profissionais que teve com alguns e se arrepende dos desentendimentos." Além da mágoa, André guarda vívida lembrança de muitas das cenas vividas após os atentados. "Quando desci as escadas, os bombeiros passaram por mim. Eles subiam carregando machados enormes, mangueiras, tanques de oxigênio, equipamentos muito pesados. Até hoje lembro da expressão de espanto no rosto deles. Eles também não sabiam o que estava acontecendo, mas fizeram um trabalho muito louvável, foi tranqüilizador ver eles ali", relembra. O engenheiro conta ter extraído várias lições da tragédia. "Aproveitei para reestruturar minha vida. Antes dava importância exagerada à carreira. Hoje, aprendi a ter uma relação mais equilibrada. Vi que o importante são os amigos e a família. Você aprende como a vida é frágil, mas valiosa."

Agencia Estado,

11 de setembro de 2006 | 08h41

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.