REUTERS/Kimimasa Mayama
REUTERS/Kimimasa Mayama

Sobreviventes da bomba atômica de Hiroshima relatam o desespero sofrido

Apesar de terem sobrevivido ao ataque do Exército americano, as memórias tristes do dia 6 de agosto de 1945 perseguem suas mentes

O Estado de S. Paulo

27 Maio 2016 | 11h25

HIROSHIMA, JAPÃO - Passaram-se mais de 70 anos da bomba atômica lançada sobre a cidade de Hiroshima pelo Exército americano, mas as memórias daquele dia trágico seguem perseguindo os sobreviventes, alguns dos quais narraram seu sofrimento à agência de notícias France-Presse.

Misako Katani tem 86 anos é uma das poucas mulheres que sobreviveram a Hiroshima e também a Nagasaki, onde a segunda bomba atômica americana explodiu.

Após a morte de seu mãe e de sua irmã no dia 6 de agosto de 1945 em Hiroshima, Katani foi ao cemitério da família em Nagasaki para deixar seus restos mortais. Mas ali foi atingida pela segunda vez pela bomba atômica, que a deixou em coma por três dias.

"Meu pai me disse: 'sua mãe e Tamie (a irmã de Misako) estão provavelmente ali, sob os escombros'" de Hiroshima. "Encontrei a ossada da minha mãe, coloquei em uma caixa. Depois encontrei ossos tão frágeis que não podia recolhê-los. Meu pai me disse: 'estes são de Tamie'. Minha mãe havia tentado escapar segurando minha irmã nos braços, antes que a casa desabasse sobre elas e morressem queimadas", conta.

"Guardo uma lembrança muito viva desta cena, como esquecê-la? Fico à beira das lágrimas quando relembro o passado", afirma. "Sofri muito de problemas pulmonares, como pneumonia. Quando me posiciono diante do altar budista da família, digo a minha mãe: 'mamãe, por favor, venha me buscar', mas ela nunca vem", relata.

“Não acredito que tenha tido um destino maldito. Buscar culpados não leva a lugar nenhum. Mas, é claro, teria sido mais feliz se não tivessem ocorrido bombardeios atômicos. Minhas lembranças são da cor cinza, de verdade, não posso me lembrar de um céu azul. No passado, odiava os EUA, mas agora não. Quero conhecer o presidente Obama e dizer a ele: 'não faça mais a guerra'".

Aos 79 anos, Shigeaki Mori se interessou pelo destino dos prisioneiros de guerra americanos que se encontravam em Hiroshima. Hoje em dia, dirige buscas sobre os detidos australianos presentes em Nagasaki.

"Andava sobre uma ponte e fui lançado no rio. Me arrastei para fora da água e vi uma mulher cambalear na minha direção. Estava coberta de sangue, seus órgãos saíam do abdômen. Sustentando-os, me perguntou onde podia encontrar um hospital, mas fugi e a deixei sozinha. Os que ainda estavam vivos caíam todos ao meu redor. Escapei esmagando seus rostos. Ouvi gritos vindos de uma casa demolida, mas fugi. Ainda era um menino, incapaz de ajudar".

Sunao Tsuboi, de 91 anos, é co-presidente da Confederação Japonesa de Organizações de Vítimas das Bombas Atômicas e de Hidrogênio. Sofreu queimaduras graves, câncer e outras doenças, mas nunca deixou de participar ativamente na campanha para um mundo livre de armas nucleares.

"Foi uma experiência espantosa. Nu, tentei fugir durante três horas, mas não conseguia caminhar. Terminei escrevendo no chão (com uma pequena pedra): 'Aqui morreu Tsuboi'. Perdi a consciência muitas vezes, até voltar à realidade em 25 de setembro", conta.

“Pode ser que eu morra amanhã, mas sou otimista. Nunca baixarei os braços. Nosso objetivo é 'zero armas nucleares'. Desculpas ou não, pouco importa. Quero simplesmente que o presidente Obama venha a Hiroshima, veja o que realmente aconteceu e ouça a voz dos sobreviventes." /AFP

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