Sobreviventes de massacre no Sudão ainda esperam socorro

Na planície do Chade, quatro sudaneses levam aos mãos ao céu enquanto rezam diante de um cova improvisada no chão pedregoso. São sobreviventes do horror. Enterram o patriarca Djali Djabir, antes um próspero fazendeiro, de 69 anos. Escaparam a uma das muitas chacinas promovidas pela milícia árabe Janjaweed no Sudão e buscaram proteção no país vizinho. Na jornada rumo ao Chade, os refugiados - cerca de 1 milhão - mal têm tempo para enterrar seus mortos, enquanto cruzam o duro deserto. E mesmo após sobreviver à barbárie, ainda têm de esperar pela ajuda humanitária.Por mais de 16 meses, os bandos armados da Janjaweed aterrorizaram a província de Darfur, no oeste do país. Queimaram vilas e executaram aldeões na província de Darfur. Nesta campanha, acusada de limpeza étnica, morreram cerca de 30 mil pessoas, conforme a ONU. Observadores estimam que os números possam ser bem mais trágicos, especialmente se a ajuda humanitária não chegar a tempo. Neste caso, a agência norte-americana de desenvolvimento prevê 300 mil vítimas.A porta-voz da agência, Marie Okabe, denunciou ontem que ações humanitárias têm sido retardadas por um crescente número de pontos de controle em estradas estratégicas do Sudão, levantados tanto pelo governo como pelo rebelde Exército de Libertação do Sudão - que, a propósito, acusa o governo de armar as milícias árabes. "Além disso, comboios foram barrados e atacados", disse Obake, citando ações tanto de homens uniformizados, como grupos militares e pessoas não identificadas. Hoje, o primeiro-ministro britânico Tony Blair somou-se ao coro e disse que o Sudão pode esperar sanções severas se não facilitar o trabalho das entidades de ajuda humanitária.Os conflitos entre tribos no país explodiram em fevereiro de 2003. Em jogo, terras e recursos naturais de Darfur. Refugiados e grupos rebeldes dizem que o governo tem apoiado as ações da Janjaweed. Denunciam ataques coordenados: helicópteros e aviões dariam resguarda aos ataques por terra dos bandos nômades, montados em cavalos e camelos.O governo do Sudão nega e promete desarmar a milícia. Hoje, a União Africana exortou o Sudão a prender e processar militantes árabes e neutralizar seu comando. Mas insistiram que as atrocidades não constituem um genocídio. Ao mesmo tempo, governo sudanês decidiu permitir a entrada de 300 homens de uma tropa da União Africana, reunindo soldados da Nigéria, Ruanda, Tanzânia e Botswana.

Agencia Estado,

07 de julho de 2004 | 15h05

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.