Sobreviventes relatam assassinatos casa por casa

Milícia pró-Assad teriam executado pelo menos 80 vítimas, com requintes de crueldade, segundo investigação da ONU

JAMIL CHADE , CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

30 Maio 2012 | 03h07

Já era o final da tarde. Os confrontos entre militares e a oposição pareciam ter terminado. Foi nesse momento que dezenas de homens fortemente armados entraram no vilarejo de Taldou, região de Hula, arrombaram portas de diversas casas, reuniram famílias em suas salas e as executaram a sangue frio. Sobreviventes relataram à ONU histórias aterrorizantes. Monitores que tiveram acesso aos corpos revelam como muitos tiveram gargantas cortadas e olhos perfurados. Entre as vítimas, estavam crianças de 5 anos. Um dos sobreviventes revelou como usou o sangue do irmão, que havia sido executado a seu lado, para também se fazer passar por morto.

Uma investigação da ONU comprovou que as mortes em Hula, no fim de semana, foram, na maior parte, execuções sumárias - em muitos casos, de famílias inteiras. Esse seria um sinal claro de que as vítimas não foram apenas pegas em meio a tiroteios ou ofensivas militares, mas eram alvos específicos. Os crimes teriam sido cometidos, em sua grande parte, por uma milícia pró-Assad, atingindo famílias que eram vistas como simpatizantes da oposição.

O resultado reforçou a percepção de que Damasco não cumpre o acordo de paz. Na segunda-feira, em Genebra, a ONU revelou que o número de mortos era de pelo menos 108 pessoas. Dessas, 49 eram crianças e outras 34 mulheres. "Famílias inteiras foram executadas em suas próprias casas", confirmou Rupert Colville, porta-voz da ONU.

As informações foram coletadas pelos observadores da ONU espalhados pela Síria. No sábado, os monitores constataram que muitos haviam sido mortos por tiros a curta distância e até a facadas. Os relatos obtidos pela ONU apontam uma certa organização no massacre, o que indicaria que ele teria sido planejado.

Um dos sobreviventes relatou como as milícias iam de casa em casa, procurando pessoas, país de famílias e pessoas ligadas à oposição. "Derrubavam portas buscando pessoas específicas", relatou uma testemunha. "Quando não a encontravam, promoviam um castigo coletivo, matando a todos da família", indicou.

Um garoto de 11 anos, também ouvido pela ONU, disse como sua mãe foi a primeira a ser executada, com um tiro na garganta. Sua irmã de 5 anos seria a próxima, além de seu irmão.

O garoto também foi alvo de um tiro, mas que acabou não o atingindo. Para escapar, caiu no chão ao lado de seu irmão e usou seu sangue para tentar evitar um novo tiro.

Em outro relato, uma menina conta como o pai foi executado com um tiro no queixo. Já monitores indicaram que, ao ver os corpos deixados numa mesquita, a constatação era a de que muitos foram mortos com facadas no pescoço, houve casos de tentativa de decapitação e ainda olhos de crianças perfurados.

Segundo a ONU, pelo menos 90 dos 108 foram executados, e não vítimas de tanques ou tiroteios. Testemunhas insistem que os autores eram membros da milícia Shabiha, pró-Assad.

A entidade Human Rights Watch disse, com base em testemunhos, que soldados abriram fogo para interromper uma manifestação após as orações. Em resposta, a oposição atacou pontos de controle dos militares, que então voltaram a lançar uma ofensiva sobre vários bairros da região de Houla. Teria sido nessa resposta que as milícias cometeram o massacre.

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