Fabian Bimmer/REUTERS
Olaf Scholz já iniciou negociações para formar coalizão Fabian Bimmer/REUTERS

Na Alemanha, social-democratas buscam aliados para agenda de centro-esquerda

Candidato a chanceler, Olaf Scholz, tenta unir interesses da sua legenda, o SPD, às intenções dos partidos Verde e Liberal

Redação, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2021 | 10h00
Atualizado 28 de setembro de 2021 | 11h34

BERLIM - Cotado como o novo chanceler da Alemanha no cenário mais provável, o candidato do SPD, Olaf Scholz, tem um grande desafio pela frente: forjar alianças para viabilizar seu projeto de governo, que inclui medidas como a modernização da indústria, o combate às mudanças climáticas e a defesa da Europa. 

O SPD obteve 25,7% dos votos, e também teve boas notícias nos pleitos paralelos realizados em Berlim, onde manteve o comando da prefeitura e do estado de Mecklemburgo-Pomerânia, no Leste da Alemanha, onde venceu as eleições para governador.

Os resultados oficiais confirmaram também que o bloco formado pela União Democrata Cristã (CDU) da chanceler Angela Merkel e seu partido-irmão da Baviera, a União Social-Cristã (CSU), teve seu pior resultado histórico, com 24,1% dos votos, 8,9 pontos a menos do que na última eleição, em 2017. O partido verde foi o terceiro colocado, com 14,8% dos votos, seguido pelo Partido Liberal Democrático, com 11,5%.

Na prática, os resultados obrigam Scholz a articular uma aliança entre seu partido, os verdes e os democratas livres. A possível coalizão vem sendo chamada de “semáforo”, em referência às cores de cada legenda (vermelho, verde e amarelo, respectivamente.)

Scholz, de 63 anos, destacou sua intenção de organizar um campo à centro-esquerda. “Os eleitores falaram claramente”, disse ele. “Eles disseram quem deveria construir o próximo governo fortalecendo três partidos, o Partido Social-Democrata, os Verdes e os Democratas Livres.”

Com desempenho positivo o suficiente para se tornar indispensável a qualquer um dos partidos que chegue ao poder, o Partido Verde já sinalizou que prefere trabalhar ao lado de Scholz. Os democratas livres, no entanto, se inclinam em direção à Laschet -- um porta-voz da política interna do partido, Konstantin Kuhle, disse que, após os resultados de domingo, a coalizão (de direita) Jamaica se tornou uma opção “mais provável” para o partido. 

Propostas 

O SPD se elegeu com uma plataforma razoavelmente clara de centro-esquerda. Entre as principais propostas, estavam o combate às mudanças climáticas, a partir de medidas como a redução de emissões de carbono, o maior apoio à imigração, a imposição de uma aposentadoria mínima estável e a construção de 100 mil unidades de habitação social por ano. Além disso, a plataforma do partido promete aumento de salário mínimo e imposto de 1% sobre grandes fortunas. 

Em conversa com repórteres nesta segunda-feira, Scholz defendeu uma Europa forte e soberana, além de boas relações com parceiros transatlânticos, nomeadamente os Estados Unidos, e a modernização da indústria nacional. 

Em entrevista coletiva na sede do partido, em Berlim, Scholz destacou que a "ação comum" da União Europeia é a base de tudo o que precisa ser feito nos próximos anos. “Se a UE quer garantir tudo o que lhe é importante em termos de Estado de Direito, economia de mercado, Estado social e progresso tecnológico, terá de o fazer em conjunto”, afirmou. Ele também disse que trabalhar para uma UE mais forte e soberana influenciará a estratégia internacional e a política externa da Alemanha.

Para Entender

Entenda como fica a escolha do chanceler da Alemanha após as eleições

Na Alemanha, cargo de chefe de governo não é escolhido em eleição direta, mas por meio de uma votação na Bundestag, a Câmara baixa do Parlamento, depois que um partido ou coalizão conseguir as cadeiras necessárias para formar um governo.

Scholz, que atuou como ministro das Finanças na 'grande coalizão' de Merkel, disse que um governo liderado por ele ofereceria aos Estados Unidos continuidade nas relações transatlânticas. "A parceria transatlântica é essencial para nós na Alemanha...você pode contar com a continuidade nesta questão", disse ele, acrescentando que é importante para as democracias trabalharem juntas em um mundo perigoso, mesmo permitindo "conflitos" ocasionais.

Sem fornecer muitos detalhes, Scholz também afirmou que irá modernizar o setor industrial alemão e “travar a mudança climática causada pelo homem.” “Nosso mandato é fazer o que as pessoas querem”, disse. 

Choque de agendas

Analistas indicam, no entanto, que isso não será tão fácil, já que os três partidos da provável coalizão têm diferenças significativas entre si. 

Para o  pesquisador do Comitê de Estudos Franco-Alemão do Instituto Francês de Relações Internacionais Paul Marice, o maior obstáculo para a coalizão é a incompatibilidade dos programas dos Verdes e dos liberais. “Cada uma das partes enfrenta desafios programáticos bastante fortes, que vão causar problemas”, disse em entrevista à Agência France-Presse.

Um dos principais tópicos de disputa deve ser a questão orçamentária. Os liberais defendem a ortodoxia, se opondo à modificação da regra constitucional de cessação do endividamento, que impede o Estado de tomar emprestado mais de 0,35% do PIB a cada ano - uma posição defendida também pela CDU. Já os Verdes e o SPD tendem a abordagem mais flexível. 

Outro ponto importante pode ser a aceleração da transição energética, que está no centro da agenda dos Verdes.  O partido ambientalista quer antecipar o prazo para a Alemanha deixar de usar usinas a carvão de 2038 a 2030. Muitos dos liberais são céticos em relação a essa medida.

SPD e liberais também podem entrar em choque. O SPD fez do reajuste do salário mínimo e das pensões duas de suas principais promessas. Scholz está sob grande pressão por parte da ala esquerda de seu partido. Para reduzir as desigualdades, o partido também quer reformar o imposto sobre as sucessões, que deixa de fora boa parte das transferências das empresas familiares, a espinha dorsal da economia alemã. Um objetivo compartilhado pelos Verdes, mas não pelos liberais.

A única esperança de que um acordo seja alcançado viria do “desejo” do Partido Liberal Democrático de entrar no governo para atuar como “corretivo” e impedir a implementação das propostas mais progressistas dos Verdes e do SPD, considera Paul Maurice.

Nesta segunda-feira, Scholz tentou projetar calma ao falar sobre as árduas negociações. "A Alemanha sempre teve governos de coalizão e sempre foi estável", disse ele ao ser perguntado sobre a possibilidade de os resultados enviarem uma mensagem de instabilidade aos seus parceiros europeus. O candidato acrescentou acreditar na formação de uma coalizão até o Natal. /AFP, AP, WP, NYT E EFE

 

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Da economia à diplomacia: os obstáculos para uma coalizão na Alemanha

Governo tripartite liderado pelos social-democratas ou pelos conservadores, em colaboração com os Verdes e os Liberais do FDP seriam as opções mais prováveis

Redação, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2021 | 10h00

BERLIM — Os partidos políticos alemães se propuseram a formar uma coalizão governamental "antes do Natal", depois que as eleições legislativas de domingo produziram resultados bastante equilibrados. 

Um governo com três partidos liderado pelos social-democratas (SPD), que terminaram em primeiro, ou pelos democratas cristãos (CDU), em colaboração com Os Verdes e os Liberais do FDP, seriam as opções mais prováveis. Mas cada uma das partes enfrenta "desafios programáticos bastante fortes", alerta Paul Maurice, especialista em estudos franco-alemães do Instituto Francês de Relações Internacionais (IFRI).

A seguir, os temas que provavelmente estarão no centro das negociações:

Orçamento e dívida

A questão orçamentária será um dos principais obstáculos à formação da coalizão. O FDP é um forte defensor da ortodoxia orçamentária. O partido é hostil à modificação da regra constitucional que impõe um freio ao endividamento, impedindo o Estado de tomar emprestado mais de 0,35% do PIB a cada ano, posição que a CDU também defende. 

Os Verdes e, em menor medida, o SPD defendem maior flexibilidade. Os ambientalistas querem tirar esse freio para financiar os investimentos caros que a transição verde exige. 

A única esperança de se chegar a um acordo viria do "desejo" do FDP de entrar no governo para atuar como "corretivo" e impedir que as propostas mais progressistas dos Verdes e do SPD sejam implementadas, considera Paul Maurice.

Políticas sociais e impostos

O SPD fez do aumento do salário mínimo e das aposentadorias uma de suas promessas. Olaf Scholz, o atual ministro das Finança e candidato a chanceler, está sob grande pressão da ala esquerda de seu partido. 

Para reduzir as desigualdades, o partido defende também o aumento dos impostos para os mais ricos e quer reformar o imposto sobre a herança, que deixa de fora boa parte das transferências das empresas familiares, a espinha dorsal da economia alemã. Um objetivo compartilhado pelos Verdes. 

Mas isso é algo difícil para o FDP, que defende cortes de impostos para as empresas e as famílias, aceitar. Os social-democratas, com base nos seus resultados eleitorais, poderão "impor estas questões" aos seus futuros parceiros de coalizão, mas terão de fazer "alterações em benefício do FDP", estima Maurice.

Política externa

Os Verdes se manifestaram claramente contra o gasoduto Nord Stream 2, que conecta a Alemanha com a Rússia, enquanto o SPD apoiou o projeto aprovado no governo de Angela Merkel

O gasoduto já está terminado, mas ainda não entrou em funcionamento, e os ambientalistas reafirmaram na campanha eleitoral que são contra a sua exploração, acusando os social-democratas e conservadores de terem "prestado um péssimo serviço à Alemanha" ao apoiar "um projeto que só beneficia o presidente russo, Vladimir Putin".

Além de uma posição mais dura em relação à Rússia, os Verdes também defendem uma atitude mais intransigente com a China, enquanto as outras partes promovem o diálogo com este parceiro comercial essencial para a Alemanha.

Por outro lado, o partido ambientalista se opôs fortemente à compra de drones de combate para o Exército alemão, enquanto o SPD pede um "debate profundo" sobre o assunto. O FDP, por outro lado, é favorável a essa compra, como a CDU.

Para Entender

Entenda como fica a escolha do chanceler da Alemanha após as eleições

Na Alemanha, cargo de chefe de governo não é escolhido em eleição direta, mas por meio de uma votação na Bundestag, a Câmara baixa do Parlamento, depois que um partido ou coalizão conseguir as cadeiras necessárias para formar um governo.

Clima

Acelerar a transição energética está no centro da agenda dos Verdes. Os ambientalistas querem antecipar o prazo para a Alemanha deixar de usar usinas a carvão de 2038 para 2030. 

Muitos dos liberais do FDP são céticos em relação a essa medida, que favorece a competitividade da indústria alemã e a inovação. 

Os liberais pedem que a meta de se alcançar a neutralidade do carbono —  ou seja a compensação de todas as emissões —  seja transferida para 2050, cinco anos depois do planejado. Os Verdes querem adiantar esse prazo, para 2040. / AFP, REUTERS e AP

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A Alemanha está emperrada, e ninguém pode movê-la; leia a análise

Diante de uma série de desafios urgentes, como a desigualdade crescente, a infraestrutura arruinada e as mudanças climáticas, a eleição era uma chance para o país traçar um curso melhor e mais uniforme para o século 21

Oliver Nachtwey/ The New York Times*, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2021 | 10h00

Os dezesseis anos da chanceler Angela Merkel no comando da Alemanha estão chegando ao fim. Ou não.

No domingo, os eleitores votaram e os resultados foram profundamente ambíguos. Nenhum partido obteve mais de 26% dos votos, a diferença entre os dois maiores partidos foi mínima e ninguém fez um grande avanço. O próximo governo ainda está um pouco distante: semanas, possivelmente meses de negociações de coalizão. Nesse ínterim, Merkel continuará liderando o país.

De muitas maneiras, é um resultado surpreendente. Ao longo de grandes períodos da campanha, o Partido Verde e a União Democrática Cristã estiveram à frente das pesquisas. Mas ambos caíram, com as campanhas vacilando porque seus candidatos não conseguiram convencer os eleitores de que eram sucessores viáveis. O Partido Social-Democrata, liderado por Olaf Scholz, então pareceu ascender na estima do eleitorado. Mas essa fase também passou. Não houve vitória decisiva.

Poderia ter sido um novo começo. Diante de uma série de desafios urgentes, como a desigualdade crescente, a infraestrutura arruinada e as mudanças climáticas, a eleição era uma chance para o país traçar um curso melhor e mais uniforme para o século 21. Em vez disso, a Alemanha está emperrada. Merkel pode estar de saída. Mas a Alemanha que ela cultivou – cuidadosa, cautelosa, avessa a grandes mudanças – continuará como antes.

A campanha nos deu as primeiras pistas. Normalmente, os candidatos ao mais alto cargo político procuram se distanciar o máximo possível dos titulares, para demonstrar a superioridade de sua visão para o país. Mas, na Alemanha, os principais candidatos competiam para imitar o estilo político centrista de Merkel. Afinal, esse estilo conquistara quatro vitórias eleitorais sucessivas.

Annalena Baerbock, a líder dos Verdes, tentou cultivar uma imagem de rigor e perícia semelhante à de Merkel. Frustrada por um escândalo de plágio e talvez pela aversão dos eleitores a alguém sem experiência no governo, ela logo perdeu a liderança na campanha e acabou levando seu partido a apenas 14% dos votos.

Armin Laschet, o sucessor de Merkel como líder dos democratas-cristãos, também tentou representar uma aura de competência e eficiência. Mas o esforço foi prejudicado por uma campanha errática e repleta de erros, sintetizada por seus comentários insensíveis durante uma visita às vítimas das enchentes no verão. Ao liderar o partido com 24%, presidiu um desempenho historicamente fraco. Ele, no entanto, ainda tentará forjar uma coalizão.

Para Entender

Entenda como fica a escolha do chanceler da Alemanha após as eleições

Na Alemanha, cargo de chefe de governo não é escolhido em eleição direta, mas por meio de uma votação na Bundestag, a Câmara baixa do Parlamento, depois que um partido ou coalizão conseguir as cadeiras necessárias para formar um governo.

Depois, temos Scholz. Embora candidato pelo Partido Social-Democrata, ele fez todos os esforços para se associar à chanceler, oferecendo-se, no lugar de Laschet, como a verdadeira opção de continuidade. Como vice-chanceler e ministro das finanças no governo Merkel, a manobra foi fácil: ele até adotou o gesto do “triângulo de poder”, marca registrada de Merkel. Funcionou, até certo ponto. Mas os quase 26% conquistados por seu partido não são suficientes para assegurar Scholz na chancelaria.

A convergência entre os candidatos vai além do estilo político. Após dezesseis anos de governo Merkel, o país se estabeleceu em um status quo aparentemente inabalável. Em termos econômicos, sociais e ecológicos, muito pouco vai mudar.

Primeiro, a economia. Com uma economia exportadora orientada para o comércio internacional – e outra, incomum para países industrializados, com um substancial setor manufatureiro – a Alemanha preza a estabilidade monetária acima de tudo. Qualquer coisa que possa afetar a competitividade internacional do país está fora de questão.

Além do mais, o freio da dívida, uma lei consolidada na constituição em 2009 que proíbe déficits orçamentários, impõe um limite rígido sobre o que é possível: haverá pouco espaço para um programa de investimento financiado por dívida ou grandes gastos em infraestrutura. Nesse cenário, não parece viável nenhuma reestruturação fundamental da economia.

Na aparência, pelo menos, a economia é bem-sucedida. Mas os ganhos econômicos não foram compartilhados pela maioria. A desigualdade de renda aumentou – o 1% mais rico possui quase um quarto de toda a riqueza – e a Alemanha tem um dos maiores setores de baixa renda entre as nações da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Cerca de um em cada cinco trabalhadores, algo em torno de 8 milhões de pessoas, ganha menos de 11,40 euros, ou US $ 13,36, por hora.

O descontentamento social, portanto, está aumentando. Nos últimos dez anos houve uma renovação considerável das greves e o termo “sociedade de classes”, antes banido, voltou ao debate público. Espalhou-se pela sociedade uma raiva mais amorfa, que encontrou expressão no apoio ao partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha e às teorias da conspiração antivacina. Seriam necessárias mudanças profundas para lidar com as raízes de tal enfermidade. Nenhum dos principais partidos parece capaz de encarar a tarefa.

Da mesma forma, é improvável uma abordagem ambiciosa em relação ao clima. Em grande parte porque, pela primeira vez na história do pós-guerra, o governo da Alemanha provavelmente será formado por três partidos em coalizão. Liderados pelos democratas-cristãos ou pelos social-democratas, que buscarão formar um governo sem o outro, que incluirá os Verdes e o Partido dos Democratas Livres.

Embora os Verdes tenham prometido “transformar o impossível em possível”, a presença dos Democratas Livres – um partido de empresários e liberais clássicos para os quais o mercado e as novas tecnologias devem resolver a crise climática, e não o Estado – colocará um freio acentuado nas políticas mais ambiciosas.

Ironicamente, devido à sua natureza cautelosa, a campanha se desenrolou em um cenário de múltiplas crises. A pandemia continua a causar enorme pressão no país, a Otan sofreu uma derrota histórica no Afeganistão e as inundações causadas pelas mudanças climáticas devastaram grandes extensões de terra neste verão e ceifaram quase 200 vidas.

Individualmente, cada problema já seria significativo. Juntos, eles equivalem a um grande confronto com o status quo. O momento – inclusive no nível europeu, em que o bloco exige uma liderança firme – demanda ousadia.

Mas isso não vai acontecer. Ao contrário, a nova era, presa a políticas consensuais e direcionamentos mornos, provavelmente trará mais do mesmo.

*Oliver Nachtwey (@onachtwey) é professor de sociologia na Universidade de Basileia e autor de Germany’s Hidden Crisis: Social Decline in the Heart of Europe. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU.

 

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