Socialismo de Chávez chega à cultura

Presidente toma medidas para concentrar produção televisiva, cinematográfica e musical sob o controle do Estado

Renata Miranda, O Estadao de S.Paulo

04 de novembro de 2007 | 00h00

Depois de anunciar diversas mudanças nos campos político e econômico da Venezuela, chegou a vez de o presidente Hugo Chávez incluir a cultura em seu projeto do "socialismo do século 21". Desde que chegou ao poder em 1999, Chávez parece empenhado em criar um império midiático estatal, centralizando sob o controle do governo a produção televisiva, cinematográfica e, agora, musical do país."Chávez quer centralizar a cultura venezuelana da mesma maneira que fez com outros setores", afirmou a chefe do Departamento de Comunicação da Universidade Central da Venezuela, Moraima Guanipa, ao Estado, por telefone. "O presidente está criando um aparelho cultural paralelo que deslegitima outros organismos que já atuavam nesse meio há anos."Chávez - que declarou guerra ao "imperialismo cultural", exigiu que as rádios tocassem mais música nacional e criou um pólo de cinema para encorajar a produção venezuelana - continua promovendo sua "revolução cultural" no país, agora com a inauguração do Centro Nacional do Disco (Cendis) no dia 15. No site do Ministério do Poder Popular para a Comunicação e a Informação da Venezuela, o diretor do Cendis, Xulio Formoso, afirma que um dos principais objetivos do projeto - orçado em US$ 7 milhões - é "difundir o projeto bolivariano" do presidente. O órgão vai produzir inicialmente 28 mil CDs e DVDs diariamente para "democratizar" o trabalho de artistas nacionais.Atualmente, Chávez controla seis emissoras de TV, incluindo a Televisão Venezuelana Social (TVes). A TVes substituiu a Rádio Caracas Televisão (RCTV), emissora privada que não teve a concessão renovada pelo governo em maio. O Estado possui também oito estações de rádio, uma agência de notícias e a maior provedora de internet do país, a Cantv.No ano passado, o presidente inaugurou a Vila do Cinema - uma instituição que conta com uma produtora de vídeo de última geração e tem como prioridade os filmes cujo roteiro venere a história do país. Muitos dos projetos da instituição, que traz em seu site o slogan "Luzes! Câmera! Revolução!", são políticos e criticam o chamado "imperialismo ianque". Um dos projetos em andamento é o filme Bambi C-4, baseado na história do ex-agente da CIA Luis Posada Carriles - apontado por Cuba e Venezuela como o autor de vários atos terroristas, entre eles a explosão de um avião cubano que fazia a rota Caracas-Havana em 1976 que deixou 73 mortos.De acordo com o cientista político Oscar Reyes, da Universidade Andrés Bello, os projetos culturais do governo estão diretamente vinculados às idéias socialistas de Chávez. "Esses projetos têm como objetivo tentar trocar a mentalidade burguesa pela proletária", afirmou. "Se você assistir à emissora TVes,por exemplo, vai notar que eles, assim como as outras emissoras públicas, só dão espaço para filmes cubanos e russos e documentários sobre os movimentos antiglobalização." Segundo Reyes, a televisão ainda é um dos grandes campos de batalha do governo.O analista político venezuelano Jesus Herrera, da Universidade Simón Bolívar, em Caracas, afirma que o governo de Chávez foi uma ruptura na cultura do país. "Os governos anteriores não davam importância à cultura nacional", disse Herrera. Segundo ele, Chávez implementou uma política nacionalista para revalorizar a tradição cultural da Venezuela. "Chávez é antiimperialista e encontrou na cultura uma maneira de promover o bolivarianismo."

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