Socialista e Sarkozy se acusam na TV

Debate é marcado pela troca de farpas entre o presidente e Hollande, favorito para vencer o 2º turno da eleição francesa, no domingo

ANDREI NETTO, O Estado de S.Paulo

03 Maio 2012 | 03h06

Quase três horas de debate expuseram ontem, a um público estimado em mais de 20 milhões de espectadores, toda a diferença ideológica entre os dois finalistas na campanha presidencial na França - o atual presidente, Nicolas Sarkozy, e o candidato do Partido Socialista (PS), François Hollande.

A quatro dias do segundo e decisivo turno da eleição, o debate foi marcado por um clima tenso, com frases fortes e críticas pesadas. Mais agressivo, o socialista atacou o balanço dos cinco anos de governo de Sarkozy, enquanto o chefe de Estado tentou expor a falta de experiência de seu oponente. Embora Sarkozy e Hollande sejam velhos conhecidos na política e já tivessem se enfrentado diante das câmeras quatro vezes, o programa de ontem foi o primeiro debate na campanha de 2012. E o resultado foi surpreendente.

O presidente, que prometia vencer o duelo e provar à opinião pública que merece mais cinco anos de governo acabou encontrando no oponente socialista, favorito das pesquisas, um duro contraponto. Ambos demonstravam grande domínio de informações em temas como economia, gestão do Estado, imigração e relações exteriores. A diferença aparecia nos matizes de direita e esquerda das propostas.

Logo no início, Hollande demonstrou que viria agressivo. Acusou Sarkozy de tentar apresentar seu mau desempenho como culpa de um complô da imprensa e dos partidos de esquerda. "Você terá dificuldades de se fazer passar por uma vítima", atacou o socialista. Sarkozy respondeu, repetindo o discurso de campanha: "Fui atacado em todos os temas e eu condeno todos os excessos. Nós não conseguimos falar de nossos balanços e de nossos projetos".

O tema predominante no debate foi a situação econômica do país. Dívida, déficit, comércio e impostos foram alguns dos assuntos. Sarkozy tentava associar Hollande ao ex-primeiro-ministro da Espanha José Luis Rodriguez Zapatero, afirmando que uma eventual gestão socialista na França seria um desastre para o país por aumentar os gastos públicos. Seu opositor retrucou afirmando que Sarkozy e o ex-primeiro-ministro da Itália Silvio Berlusconi pertenciam ao mesmo partido europeu e eles, entre outros, haviam implementado a austeridade excessiva, permitido que a crise na Europa se prolongasse por tanto tempo.

Falando de desemprego, ambos manipularam os números de acordo com seus interesses. Hollande acusou Sarkozy de ter permitido que a barra de 4 milhões de desempregados fosse ultrapassada. "O desemprego aumentou em um milhão em seu governo", acusou. "O desemprego aumentou em 422 mil entre 2007 e 2011, o que é demais", respondeu o presidente.

Temas sociais também levaram a fortes embates. Sobre imigração, o choque foi frontal. Enquanto o presidente prometia reduzir em 50% a entrada legal de estrangeiros no país, Hollande limitou-se a prometer mais rigor para imigrantes em busca de trabalho. Sarkozy insinuou que os imigrantes na França são muçulmanos, o que abriu o flanco para o ataque de Hollande, que acusou o presidente de estimular uma política discriminatória contra os estrangeiros.

Sobre a política internacional, Hollande voltou a prometer que retirará as tropas da França no Afeganistão no final de 2012, enquanto Sarkozy garantiu mantê-las até 2013.

Além de propostas, o debate era feito de acusações e ofensas. Durante os quase 180 minutos, os dois candidatos trocaram farpas. Sarkozy empregou críticas como: "Você mente", "seus números são falsos" e "você é um caluniadorzinho". Hollande bateu na "vitimização" do presidente, afirmando que "nada nunca é sua culpa", que "tem sempre um bode expiatório" e seu discurso se baseia "na calúnia e na mentira".

Para analistas, o duelo deixou a sensação de um empate, mas com uma surpresa: Hollande se mostrando mais agressivo e Sarkozy na defensiva. Ainda na noite de ontem o instituto OpinionWay divulgaria uma pesquisa de opinião sobre o desempenho dos candidatos. Em uma enquete realizada pelo site do jornal Le Monde indicou que 75% acreditavam no melhor desempenho do socialista, e 25% no do atual chefe de Estado. Outra enquete, do jornal Le Figaro, apontou que cerca de 20% dos espectadores estava pronto a mudar de voto após o debate - o que relança dúvidas sobre o resultado da votação no domingo.

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