Socialistas franceses buscam "bode expiatório"

Depois do impacto causado pelo desastre eleitoral do dia 21, chegou a hora do acerto de contas e da busca de um "bode expiatório" entre os socialistas franceses. Os primeiros da lista são os homens do marketing, responsáveis pela fabricação da imagem do candidato Lionel Jospin e pelos desvios publicitários da campanha.O conhecido homem de publicidade, Jacques Seguela, até agora tido como o papa do marketing político na França, está sendo sacrificado no altar da derrota socialista. Seu trabalho corresponde ao de Duda Mendonça ou de Nizan Guanaes com presidenciáveis brasileiros.Seguela, muito presente na televisão no início da campanha, não deu mais o ar de sua graça desde a derrota dos socialistas, apesar das fortes críticas do aparelho socialista contra seu trabalho nestes últimos dias. A revista Stratégies, muito influente no meio publicitário francês, afirma que o malogro de Jospin relança o debate sobre a comunicação política, lembrando que as estratégias adotadas pelos candidatos dos partidos tradicionais, de esquerda e direita, não conseguiram sensibilizar o eleitorado.Jospin foi derrotado, e Chirac escapou por pouco, pois perdeu mais de 4 milhões de votos, se compararmos sua votação atual à por ele obtida em 1995. Os dois juntos só conseguiram reunir 36% das preferências, tendo ocorrido a maior dispersão de votos da história da Quinta República, além de uma abstenção recorde.Mesmo a televisão não poupa críticas ao "marqueteiro" de Jospin, e o jornal das oito da emissora France 2, sem hesitar, citou a perda do instinto e da capacidade de captação dos anseios da população, duas entre as maiores qualidades do homem político, e sua substituição por "embalagens mais cosméticas", próprias da publicidade comercial.É claro que existiram diversas outras razões, entre elas a exasperação dos franceses com o aumento da violência e da insegurança, o discurso centrista do candidato socialista na primeira fase da campanha e uma mudança de direção brusca e tardia. Mas os analistas são unânimes em reconhecer que a utilização do marketing como arma absoluta, transformando a imagem do homem político, foi um dos grandes erros da campanha do PS.A estratégia de Jospin e Chirac foi oposta à adotada por Jean-Marie Le Pen, que soube adaptar-se às circunstâncias, contentando-se em navegar nas ondas da atualidade, sem muito se preocupar com seus diretores de comunicação, demitidos um após outro, segundo o ritmo de suas mudanças de humor.Jospin preferiu entregar-se aos marqueteiros, permitindo que substituíssem o político habilidoso por um "homem-sanduíche". Uma analista política comparou o choque entre Chirac e Jospin a uma disputa comercial entre Adidas e Nike às vésperas de Roland Garros ou da Copa do Mundo. O candidato esteve preocupado com a escolha do melhor slogan da campanha, as cores de seus ternos e cartazes, o nome de seu QG de campanha e outros truques publicitários que podem ter valor para vender iogurte, mas não para identificar a imagem de um homem de Estado e de um político com pretensões de chegar à presidência da república.Na opinião de Claude Marti, conselheiro político do candidato do pólo republicano, Jean Pierre Chevènement, o primeiro-ministro francês permitiu que o transformassem numa espécie de "tabelião de província vestido com terno Lanvin", cujo corpo resiste ao corte e custa a se amoldar.O surpreendente resultado do pleito francês pode servir de exemplo a candidatos de outras campanhas eleitorais, inclusive no Brasil, onde o contexto pode ser diverso, mas existem pessoas fortemente tentadas a entregar seu destino político nas mãos desses especialistas na formação de imagens, uma técnica que nem sempre resiste ao mau tempo.

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