REUTERS/Jon Nazca
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Socialistas herdam votos da 'geringonça' para construir maioria absoluta em Portugal

Temor do avanço da extrema-direita consolidou votação surpreendente dos socialistas nas eleições de 30 de janeiro

Redação, O Estado de S.Paulo

31 de janeiro de 2022 | 15h00

LISBOA  - Os socialistas preparam-se para um novo governo de quatro anos em Portugal respaldados por uma surpreendente votação que deu à centro-esquerda 117 deputados e sua segunda maioria absoluta na história da república. Isso ocorreu graças a migração ao centro  de votos de eleitores das duas legendas de extrema esquerda que chegaram a compor o mandato do primeiro mandato do premiê António Costa: o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista Português.

Na comparação com a eleição de 2019, o bloco foi de 19 deputados para apenas 5 e os comunistas, de 10 para 6. Os socialistas, em compensação, aumentaram a bancada de 108 parlamentares para 117, com a possibilidade de ganhar mais duas cadeiras de deputados que representam os portugueses no exterior. 

Segundo analistas, isso ocorreu em consequência do temor de uma aliança entre o Partido Social-Democrata (PSD), de centro-direita, e a extrema direita representada pelo Chega, que se tornou a terceira força política do país – foi de apenas 1 deputado para 12. 

"Esses votos vieram fundamentalmente da esquerda e de uma maior mobilização pró-voto socialista", explica Sílvia Roque, pesquisadora do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. "O PS venceu por causa do voto útil."

"As pessoas ficaram com tanto medo que a direita pudesse ganhar e se coligar com a extrema-direita, a ponto da extrema direita ter grande peso no governo, que correram votar no Partido Socialista, que era o único que podia impedir diretamente a eleição de um governo de direita", completa.

Com a maioria absoluta, Costa não precisará mais reeditar a “geringonça”, como ficou conhecida a aliança com o bloco e os comunistas. 

“Livre das correntes da esquerda radical, os socialistas poderam implementar soluções mais moderadas e focadas na Europa”, disse o jornal Público em editorial nesta segunda-feira, 31. 

O crescimento do Chega e a decisão dos antigos sócios de coalizão de romperem com o PS para antecipar a eleição foram usados por Costa na campanha com sucesso para mobilizar os eleitores de esquerda em torno de sua candidatura. 

O voto útil no Partido Socialista também demonstra uma vontade do eleitorado português em não fazer grandes mudanças agora. "As pessoas estão cansadas após a pandemia e com o chumbo do orçamento. O António Costa conseguiu convencer toda a gente que a culpa das falhas era dos outros partidos, como se não fosse uma falha de todos", afirma Sílvia Roque.

Desafios para o novo mandato

Agora, a maioria socialista possibilitará ao primeiro-ministro driblar as intervenções do presidente português, o conservador Marcelo Rebelo de Sousa, que nos últimos anos apelava para um consenso entre esquerda e direita diante de grandes impasses políticos. 

“Marcelo terá menos poderes e uma margem de manobra menor para vetar leis”, disse o cientista político José Pinto. “Haverá mais centralismo nas decisões de Costa.”

Apesar do amplo mandato concedido pelas urnas, o premiê em seu discurso de vitória disse que a maioria absoluta não representa um poder absoluto e prometeu dialogar com outros partidos. 

Segundo Sílvia Roque, a ausência de partidos de esquerda também permitirá ao novo governo caminhar mais para a centro-direita, se assim o quiser. "O que se espera com essa maioria absoluta é que o PS, que é de centro-esquerda, tende a ir mais para a direita porque já não tem os parceiros de esquerda tentando puxar as políticas mais para a esquerda".

Pela frente, Costa terá dois problemas: conduzir Portugal na recuperação da pandemia –  que no momento atinge o país com força, em meio ao avanço da variante Ômicron – e lidar com os problemas crônicos da economia portuguesa.

O país é o mais pobre da Europa Ocidental e o envelhecimento da população e a migração interna e externa têm se tornado problemas difíceis de gerir nos últimos anos. “Uma estabilidade a curto prazo pode se tornar uma instabilidade a longo prazo se os anseios dos eleitores não forem atendidos”, disse a cientista política Susana Salgado, do Instituto de Ciências Políticas de Lisboa.  / EFE, AP E REUTERS

 

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