Socialistas se revoltam com mulher de Hollande

Primeira-dama apoia rival da ex-mulher do presidente e abre primeira crise no governo

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

14 de junho de 2012 | 03h09

Um presidente furioso, o premiê dando broncas em público, a primeira-dama que não se arrepende do que fez e uma candidata ofendida. Esse foi o dia seguinte da crise provocada pelo tuíte da primeira-dama da França, Valérie Trierweiler, em que ela apoia o adversário da socialista Ségolène Royal, ex-mulher de seu marido, o presidente François Hollande, no segundo turno das eleições legislativas.

Na terça-feira, a primeira-dama escreveu em seu Twitter uma mensagem de apoio a Olivier Falorni, que é dissidente do Partido Socialista e adversário de Ségolène na circunscrição de La Rochelle. "Boa sorte a Olivier Falorni, que merece, que luta ao lado dos moradores de La Rochelle há tantos anos com um compromisso altruísta."

A imprensa interpretou a demonstração de apoio a Falorni como um ataque gratuito contra Ségolène, ex-mulher de Hollande. Ontem, a repercussão continuou forte. A primeira-dama não se pronunciou, mas sua amiga, a jornalista Alba Ventura, afirmou à rádio RTL ter conversado com Valérie. "Se ela lamenta o gesto? Não", disse. "Ela considera injustos os ataques contra Falorni, um dos mais antigos e sólidos apoiadores de Hollande."

Ainda segundo a amiga, Valérie teria dito que "falar em ciúmes, neste caso, é idiota", já que não haveria interferência entre a vida pública e a privada. Para a primeira-dama, o assunto ganhou uma proporção grande demais.

Revolta. O problema é que o tuíte de Valérie causou indignação no PS e no governo. De acordo com a rádio Europe 1, Hollande teria ficado "muito irritado" com sua mulher e teria convocado conselheiros políticos para traçar uma estratégia para controlar a repercussão do ato.

Coincidência ou não, o primeiro-ministro, Jean-Marc Ayrault, voltou à tona ontem com uma carga de críticas à primeira-dama. Segundo ele, Valérie precisa "aprender a se limitar a sua reserva". "Creio que seu papel deve ser bem discreto, um ponto que não é fácil de encontrar. Cada um deve ficar no seu lugar."

Ségolène também reagiu ontem, reclamando da "agitação" que se abateu sobre a campanha e minimizando a polêmica. "O importante de uma campanha é se dirigir a homens e mulheres que esperam algo da política", disse. "Eu continuo no meu caminho, não me deixo desviar, distrair ou dispersar. Quero unir e mobilizar os eleitores em torno de valores como a honestidade, o compromisso, a moral e a ação, que são os meus." A ex-mulher de Hollande pediu que os jornalistas "se interessem por questões mais importantes".

Apesar da mobilização do PS em solidariedade a Ségolène, a ex-deputada e atual presidente do conselho gestor da região de Poitou-Charentes, no leste do país, terá dificuldades para voltar à Assembleia Nacional, que ela pretendia presidir.

Segundo pesquisa do instituto Ifop, Ségolène, que venceu o primeiro turno no domingo, enfrenta agora a reunião de seus opositores e teria 42% das intenções de voto contra 58% de Falorni. De acordo com o responsável pela sondagem, Frédéric Dabi, metade dos entrevistados foram ouvidos após o tuíte de Valérie.

Ao tomar conhecimento do resultado, Ségolène atacou seu adversário e pediu apoio aos eleitores. "É preciso hoje que os eleitores da esquerda e da base presidencial se mobilizem e não aceitem esse estelionato político." Além de sua rival, o problema de Ségolène é o tempo: o segundo turno das eleições legislativas ocorre no domingo.

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