Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Sociedade está saturada e isso ajuda o populismo, diz pesquisador francês

Para professor do Sciences Po, político que oferece soluções fáceis conquista o eleitor que está cansado de tanta informação

Entrevista com

Dominique Reynié, professor do Instituto de Estudos Políticos de Paris

Paulo Beraldo e Julia Correa, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2019 | 06h00

A extrema direita nunca teve tanta chance de vencer uma eleição na França como agora. A avaliação é do professor Dominique Reynié, do Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences Po). Ele esteve no Brasil para apresentar os resultados da pesquisa Democracias Sob Tensão, que ouviu 36.395 pessoas em 42 países. 

Reynié diz que os políticos que “simplificam” a realidade e apresentam soluções fáceis conseguem conquistar eleitores saturados de informação. “Uma parte do aumento do populismo no mundo tem a ver com a saturação cognitiva e essa demanda por simplificação”, disse. A seguir, trechos da entrevista ao Estado

Em sua palestra, o sr. cita uma ‘saturação cognitiva’ da sociedade, na qual os indivíduos buscam soluções mais simples. Como isso funciona com políticos populistas? 

Vivemos uma época de mudanças profundas e poderosas em áreas muito diferentes da vida privada, política, da ciência, da cultura. Há informações demais, complexas demais para que possamos assimilá-las, entendê-las e aceitá-las. Evidentemente, por parte da sociedade, em especial as elites intelectuais e os homens de negócios, é possível viver com isso. É até uma oportunidade. Mas, para grande parte da sociedade, é uma fonte de angústia e de sofrimento. Uma parte do aumento do populismo no mundo democrático tem muito a ver com essa saturação cognitiva e essa demanda por simplificação, para reduzir o sofrimento psíquico de uma parte da população. 

No Brasil, o relatório mostra que 50% das pessoas não se interessam por política. Esse é um ingrediente a mais?

Sim, essa é uma razão importante. Vemos isso no Brasil, mas também no mundo democrático todo. É uma tendência que eu qualificaria de “despolitização”, um retiro em relação à cena pública. A gente se fecha em comunidades privadas, em redes. Mas a gente se separa da comunidade nacional, política. 

Como podemos melhorar a eficácia da democracia e a confiança das pessoas?

A crise da cultura democrática que observamos tem a ver parcialmente com a perda de confiança na capacidade do Estado democrático de produzir serviços fundamentais – segurança, educação, saúde. Essa perda vai levar uma parte dos cidadãos a arriscar a experiência de uma saída da democracia. É isso que nos ameaça. Toda questão é restaurar a eficiência. E o caminho é se apoiar na globalização que, provavelmente, é o grande desafio atualmente. 

Os países que mais enriquecem hoje não são as democracias. Por quê? 

Há uma ameaça particular que pesa sobre a democracia: o fato de que, se não conseguirmos garantir um conforto material mínimo, não vai haver apego à democracia. E ela, por natureza, não pode obrigar os cidadãos a lhe sustentar. Para ser apoiada, precisa de um bom desempenho, do ponto de vista material e das liberdades. A força do governo autoritário é justamente poder se manter mesmo se os cidadãos não apoiam. No caso chinês, não há apenas força e repressão, há uma eficácia prática de enriquecer os chineses, melhorar o nível de vida, de educação. Então, temos um antimodelo que pode trazer uma parte dos cidadãos das democracias a perder a solidariedade com a ideia democrática. É a razão pela qual é essencial trabalhar no fortalecimento dos Estados democráticos. 

Como deve ser a relação entre Estados democráticos e não democráticos?

Esse ponto é importante. Podemos ter relações econômicas e comerciais com a China. É até recomendável. Mas a questão é não somente saber quais são as consequências dessas relações sobre a liberdade na China, ou sobre a autoridade na China. A gente deve se indagar se é razoável as democracias ajudarem a China a se tornar mais poderosa sendo que ela não é um regime democrático. 

O sr. vê algum tipo de movimentação nesse sentido?

Hoje, vemos quase o contrário. Nas relações entre Brasil e França, EUA e Europa, prevalece o sentimento de divisão do mundo democrático. Ou isso é uma tendência que vai se afirmar com uma fragmentação que precipita o declínio da democracia no mundo, ou é uma fase intermediária, uma crise que vai levar os chefes de Estado dos países democráticos a começarem a discutir as condições de uma cooperação internacional democrática. 

Qual seria o efeito dos 'coletes amarelos' na França e nas próximas eleições francesas?

Os coletes amarelos vão ter influência profunda sobre a sociedade, a vida política e sem dúvida sobre as eleições de 2022. Eles trouxeram uma politização de protesto de uma parte muito grande da sociedade francesa. Na França, havia eleitores da extrema direita e do populismo de esquerda. Mas os coletes amarelos não são essas pessoas. Não acredito que eles terão um voto moderado. Ou vão se abster ou fornecer eleitores a mais para o voto populista.

Então as chances de a extrema direita vencer, com Marine Le Pen, são maiores do que nunca? 

É exatamente essa frase que é preciso dizer. Ela tem mais chances do que nunca de ser eleita presidente da França em 2022. Não significa que vai ser eleita, mas que tem mais chances do que jamais teve. 

Há alguma comparação entre Marine, Viktor Orbán, premiê da Hungria, e Jair Bolsonaro? 

Diria que o ponto-chave que os aproxima é o que Vladimir Putin chama de “soberanismo” democrático. Isso é uma democracia bizarra. 

Como o senhor vê o papel das redes sociais no declínio ao apego à democracia?

As redes sociais, que são ainda mais recentes, estão mudando profundamente o espaço público e democrático. E há efeitos positivos e negativos. É extraordinário quase todo mundo dar seu ponto de vista e participar de uma discussão. Mas também há aspectos terrivelmente negativos, como o efeito de bolha e a tendência de dialogar apenas com quem pensa igual. 

 

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