Sociedade iemenita se divide por tribos, clãs e fervor religioso

Rixas e divergências entre facções intensificam disputa e ampliam fratura social no país islâmico

Solly Boussidan, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2011 | 00h00

SANAA

Uma sociedade extremamente conservadora e, sobretudo no norte do país, estruturada muito fortemente em grandes tribos e clãs é traço fundamental da população do Iêmen, que ajuda a compreender como demonstrações iniciadas de forma pacífica inspiradas na primavera árabe e no exemplo de países como a Tunísia, Líbia, Egito e Síria, degringolaram para um estado de quase anarquia e guerra civil no Iêmen.

As demonstrações antigoverno tiveram seu principal foco inicial na Universidade de Sanaa em uma coalizão que envolvia grupos estudantis e partidos de oposição política ao regime de Ali Abdullah Saleh. O Iêmen viu a repressão aos protestos anti-Saleh tornarem-se cada vez mais agressivos quando o xeque Sadeq al-Ahmar, líder de uma das principais federações tribais a qual o presidente é ligado, declarou seu apoio aos manifestantes em uma claro desafio a Saleh.

As forças de segurança do Iêmen, leais ao presidente, passaram a atacar membros, prédios e negócios ligados aos Al-Ahmar, algo que, segundo a tradição local, exige resposta na mesma proporção para manter a honra da tribo. Com o argumento de estar se unindo às "aspirações do povo iemenita", Al-Ahmar ordenou a seus homens que se unissem aos manifestantes e atacassem o governo, levando o Iêmen à beira da guerra civil, opondo não só ideologias e a disputa pelo poder político, mas também distintos clãs.

A divisão política entre apoiadores e opositores do regime foi sentida até em pontos distantes da capital. No pequeno Arquipélago de Socotra, a 510 quilômetros da costa do país, uma região onde tribos e clãs têm bem menos importância, a população de pouco mais de 50 mil habitantes está completamente dividida.

O biólogo Fuad Issa, de 33 anos, diz que apoiava o presidente, mas mudou de opinião ao ver a truculência com que os manifestantes foram reprimidos. "Acho que Saleh fez coisas boas, mas o governo se tornou corrupto e passou a se importar só consigo próprio. Não temos investimentos e a maior parte dos iemenitas são muito pobres. Nossa vida não tem melhorado - ao contrário, está cada vez mais difícil. É hora de termos um governo que cuide do povo", afirma Issa.

Seu amigo, o policial Abdul al-Islami discorda. "Temos um bom governo e um bom presidente. Somos o país mais pobre do Oriente Médio, mas mesmo assim temos uma infraestrutura melhor do que a Líbia ou o Egito."

Um fator muito importante da sociedade iemenita, que tem passado quase despercebido por analistas estrangeiros tem a ver com o peso da religião no apoio à oposição. Grande parte da população do país segue as regras islâmicas de forma estrita, com um número considerável de pessoas vertendo ao extremismo religioso. O fato de Al-Ahmar ser um xeque - termo honorífico, que geralmente qualifica pessoas com amplo conhecimento do Islã - faz com que essa camada da população, mais preocupada com a manutenção de valores religiosos do que com os ideais democráticos, apoie em massa o movimento antigovernista.

"Qualquer um que se interesse pelo Islã deveria apoiar o xeque al-Ahmar", diz Husein Falah, do Centro para o Chamado aos Estrangeiros, organização islamista de Sanaa, cujo objetivo é educar estrangeiros e trazer novos fiéis. Abdul al-Islami não esconde sua irritação ao ser indagado sobre as motivações religiosas dos que apoiam Al-Ahmar. "Querem transformar o Iêmen num Estado islâmico como Irã ou Arábia Saudita", resume.

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