Sociedades paralelas e o erro da Alemanha

Núcleos de imigrantes são características marcantes de nações dinâmicas, coisa[br]que Angela Merkel e muitos alemães ainda não entenderam

Henryk M.Broder Der Spiegel, O Estado de S.Paulo

22 Outubro 2010 | 00h00

Quando Hu e sua mulher chegaram à Alemanha, 30 anos atrás, ambos tinham pouco mais de 20 anos, não tinham dinheiro e não falavam uma palavra de alemão. Todos os seus pertences poderiam ser acomodados em apenas duas sacolas. Para começar uma nova vida, eles trouxeram um caderno com algumas receitas e um pedaço de papel com o endereço de chineses que já moravam no país.

Assim que chegaram, se mudaram para um pequeno sótão e começaram a trabalhar como ajudantes de cozinha em um restaurante chinês. Desde aquela época, pouco mudou, exceto o fato de o casal possuir agora seu próprio restaurante, conhecido pelos pratos autênticos, e de ambos morarem em um apartamento próprio, mais espaçoso.

O sr. Hu trabalha na cozinha, dirigindo o trabalho de cinco cozinheiros, enquanto a sra. Hu anota os pedidos feitos pelos clientes. O casal tem uma filha e um filho. Ambos estudam química. "Pensamos muito ao escolher uma universidade para eles", diz a sra. Hu. "No fim, acabamos nos decidindo por Aachen. Não existe lugar melhor para se estudar química."

Em casa, a família fala chinês e muitos dos fregueses do restaurante são chineses, bem como a maioria de seus amigos. Em resumo, a família Hu vive dentro daquilo que pode ser descrito como uma sociedade paralela, estilo de vida imigrante que muitos alemães, principalmente dentro dos círculos conservadores dos quais Angela Merkel faz parte, preferiam que não existisse. De fato, Merkel disse recentemente que o multiculturalismo "fracassou completamente" no país. Esse tipo de debate não interessa à família Hu. Ninguém jamais perguntou se eles têm a sensação de estarem integrados à sociedade alemã. "Estamos nos saindo bem", diz o sr. Hu. "Vivemos confortavelmente aqui."

Svetlana Gerner, nascida em Kiev, capital da Ucrânia, em 1964, chegou à Alemanha em 1992 com a filha de 3 anos, Marina. Seus pais, judeus não praticantes, a seguiram dois anos depois. Na sua casa falava-se iídiche e russo. Ela disse que começou a aprender o alemão "desde o primeiro dia" e frequentou uma escola de design. Formou-se com excelentes notas e logo conseguiu um emprego numa grande agência na área de design corporativo.

Sua filha, agora com 21 anos, estuda economia em Londres, enquanto seus pais, ambos com 71 anos, "trabalham dia e noite e passam o tempo na companhia um do outro". O pai dela obteve um diploma de engenharia na União Soviética e sua mãe estudou economia.

Svetlana também vive em uma sociedade paralela: é cercada pelo idioma russo, alimenta-se principalmente de pratos da culinária russa e comemora os feriados russos. Mas ela não tem interesse em voltar a Kiev e nem tenta evitar o contato com os alemães. Ao contrário. Na recente celebração da reunificação alemã, ela trabalhou em Frankfurt em um projeto que marcou o 20.º aniversário do evento.

A família Hu e a família Gerner nunca se conheceram. Na verdade, nem mesmo sabem uma a respeito da outra. Essencialmente, elas habitam mundos paralelos. Ainda assim, ambas têm algo em comum: a população e o debate público não manifestam nenhum interesse por elas. Não existe nenhum tipo de "conferência chinesa" comandada pelo ministro alemão do Interior, nos moldes da que existe para o Islã, e não há programa de integração para os judeus da União Soviética, como aquele que é mantido para os imigrantes turcos.

Ninguém quer saber qual é a religião praticada pela família Hu e nem qual é o idioma em que Svetlana faz suas orações, se é que ela reza. Basta que os Hus e os Gerners obedeçam a lei, não atravessem o sinal vermelho e façam sua contribuição para o PIB alemão. Tudo o mais é questão de foro privado e não é da conta de ninguém.

Por que, então, o termo "sociedade paralela" tem uma conotação tão negativa na Alemanha? Por que o multiculturalismo "fracassou"? Somente as sociedades primitivas, que não permitem nenhum tipo de diferença, e as ditaduras, que controlam todos os aspectos da vida, estão livres das sociedades paralelas. Tanto o Terceiro Reich quanto a Alemanha Oriental comunista, por exemplo, estavam livres desse tipo de coisa. Nas populações flexíveis e em mutação, a existência de sociedades paralelas é inevitável.

E elas não são difíceis de encontrar. Os bairros de China Town e Little Italy, em Nova York, são apenas os exemplos mais conhecidos. Não faz tanto tempo, o bairro de Yorkville, no East Side, em Manhattan, perto da Rua 86, era chamado de "Broadway Alemã". Perto de 1900, a região de Washington Heights, no norte de Manhattan, era habitada, principalmente, por irlandeses. Nas décadas de 30 e 40, os judeus os substituíram. Depois, vieram os gregos, nos anos 60 e 70. Agora, Washington Heights abriga imigrantes caribenhos, uma sucessão de sociedades paralelas que tomaram uma o lugar da outra.

Little Odessa, perto de Coney Island, é dominada pelos russos, enquanto em Greenpoint é difícil ir longe sem saber um pouco de polonês. Um passeio pelo metrô de Nova York é uma viagem por diferentes sociedades paralelas, uma ao lado da outra.

Em Israel, onde a maioria da população possui um "passado de migrações", havia ao menos 12 grupos diferentes de alemães que se mantinham fiéis à cultura do país de origem. Os da Renânia celebravam o carnaval, os da Baviera faziam a Oktoberfest e os de Königsberg comemoravam o aniversário de Immanuel Kant. Judeus da Áustria, da Hungria e da Bucovina se mantiveram fiéis a sua cultura, assim como os poloneses, os romenos e os lituanos.

Atualmente, os judeus russos representam a maior das sociedades paralelas de Israel e têm seus próprios jornais, emissoras de rádio e clubes. De fato, há quatro sociedades paralelas somente na cidade velha de Jerusalém: os gregos ortodoxos, os muçulmanos, os judeus e os armênios.

Há também os samaritanos em Nablus, os "hebreus negros" de Dimona, os bahaístas em Haifa, os "judeus por Jesus" e, finalmente, os esquerdistas, que se reúnem todas as tardes de sexta-feira no Café Tamar, na Rua Sheinkin, em Tel-Aviv. Nada além de sociedades paralelas que mantêm pouco contato entre si.

De fato, parece que apenas os alemães têm dificuldade em perceber que as sociedades paralelas são inevitáveis - talvez até desejáveis e úteis. Elas conferem às pessoas a sensação de pertencerem a algo palpável. Trazem o tipo de segurança que a sociedade mais ampla não é capaz de lhes oferecer. E refletem a diversidade de uma sociedade, um bem sem o qual nem mesmo a Alemanha pode viver. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É JORNALISTA E ESCRITOR

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