''Sofremos uma tentativa de golpe e a ameaça ainda não foi debelada''

Javier Ponce Cevallos, ministro da Defesa do Equador

João Paulo Charleaux, O Estado de S.Paulo

10 de outubro de 2010 | 00h00

O ministro da Defesa do Equador, Javier Ponce, já estava se acostumando com crises militares. Desde março de 2009, quando foi criado o Conselho de Defesa da União das Nações Sul-Americanas (Unasul) - cuja sede está na capital equatoriana - ele já se viu no meio de debates espinhosos entre Chile, Bolívia e Peru, ou entre Venezuela e Colômbia. Todos os desafios, porém, tinham um reconfortante ponto em comum: ocorriam fora do Equador. Há oito dias, Ponce foi surpreendido por um levante militar nas ruas de Quito que deixou 10 mortos e quase 300 feridos. Para o governo, foi uma tentativa de golpe de Estado. E, para Ponce, a ameaça ainda paira no ar. A seguir, os principais trechos da entrevista que ele concedeu ao Estado, por telefone.

A crise está superada?

Não completamente. Vencemos uma etapa crítica, de ameaça aguda, mas ainda é preciso investigar profundamente esse episódio e rever nossas estruturas policiais. Houve uma grave conspiração, que foi derrotada, mas a ameaça ainda não foi debelada.

Foi uma tentativa de golpe ou uma rebelião por salários?

Foi uma tentativa de golpe de Estado planejada com antecedência. A operação incluiu a tomada da sede do Poder Legislativo e o sequestro do presidente da república. Dois dos três poderes do Estado foram neutralizados.

Se foi um golpe, quem estava por trás dele?

Havia um reduto conspirador no interior da polícia, que funcionava sob a influência da Sociedade Patriótica (grupo opositor ligado ao ex-presidente equatoriano Lucio Gutiérrez). Esse grupo planejou o golpe com antecedência e funcionou de forma articulada. Nada foi improvisado.

O fato de Gutiérrez estar no Brasil no dia da rebelião foi uma coincidência?

Não foi uma coincidência. Ele poderia estar no Brasil para isentar-se de culpa e defender-se em caso de fracasso do golpe, como acabou fazendo.

Se ele estivesse em Quito teria sido preso?

Não. Ele não será preso quando retornar ao Equador.

O sr. quer dizer que o debate sobre a nova lei para os servidores não teve nenhum peso na rebelião?

A medida afetava não apenas os policiais, mas também os militares. Entretanto - com exceção da Força Aérea, que tinha uma demanda bastante específica e tomou o aeroporto - nenhum grupo das Forças Armadas tomou parte no levante. Ao contrário, foram os militares que intercederam para pôr fim à crise. Insisto que os golpistas estavam localizados na polícia e tinham uma agenda.

Na terça-feira, o chanceler equatoriano, Ricardo Patiño, disse que, depois da rebelião, o presidente Rafael Correa radicalizaria a revolução. O que é isso?

O aprofundamento do combate à corrupção e ao narcotráfico, por exemplo. Mas aí teríamos de entrar em um debate político sobre o socialismo do século 21. E acho que não é o caso.

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