AFPTV/AFP
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Soldado foge de Mianmar e diz que prefere morrer a participar de repressão a manifestantes

Deserções são raras nas fileiras do poderoso Tatmadaw, o nome das forças armadas birmanesas, e quase nunca são anunciadas publicamente por medo de retaliação

Redação, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2021 | 20h00

YANGON - O soldado birmanês Shing Ling, que desertou e está escondido em Yangon há duas semanas, está preparado para morrer se o Exército o encontrar, em vez de participar do "banho de sangue" contra os manifestantes em Mianmar.

Este militar quer que o mundo saiba de sua deserção e na semana passada publicou uma foto no Facebook onde aparece de frente para a câmera, de uniforme e mostrando três dedos em sinal de resistência.

Alguns o chamaram de "traidor", mas as reações foram em sua maioria positivas, com internautas elogiando sua "bravura" e "comportamento heroico".

Deserções são raras nas fileiras do poderoso Tatmadaw, o nome das forças armadas birmanesas, e quase nunca são anunciadas publicamente por medo de retaliação.

Os riscos são enormes. O código militar prevê a pena de morte para os soldados condenados por esses atos. Mas "me sinto muito culpado e envergonhado" desde o golpe de Estado, disse à France Presse Shing Ling, de 30 anos.

Em seis semanas, as forças de segurança mataram mais de 180 manifestantes pró-democracia, de acordo com a Associação para Ajuda a Presos Políticos (AAPP).

'Banho de sangue'

O número de mortos aumentou consideravelmente nos últimos três dias. A junta parece mais determinada do que nunca a reprimir os protestos, apesar das condenações internacionais, especialmente da ONU, que denunciou prováveis "crimes contra a humanidade" e "um banho de sangue". 

Para Shing Ling, o caminho para a deserção durou um mês. Em 1º de fevereiro, os generais, alegando fraude nas eleições legislativas de novembro vencidas pelo partido de Aung San Suu Kyi, a derrubaram.

O soldado, "chocado", decidiu permanecer nas fileiras. Mas as forças de segurança reprimiam cada vez mais as concentrações, em sua maioria pacíficas, e não hesitavam em usar armas letais.

"Uma vez eles usaram gás lacrimogêneo para dispersar a multidão, mas também vi munição real. Comecei a abrir os olhos", conta.

Poucos dias depois, no início de março, vários manifestantes foram mortos no norte de Yangon, a capital econômica, enquanto sua divisão estava implantada nas proximidades. 

"Minha arma deveria disparar contra pessoas indefesas. Mas não podia fazer isso. Decidi me unir" ao movimento de desobediência civil, lançado poucas horas depois do golpe em resistência à junta, explica.

Desde que anunciou sua deserção no Facebook, o soldado rompeu relações com seu batalhão, mudou sua aparência e seu chip de celular. Mas está convencido de que o Exército acabará por encontrá-lo e diz que "espera o pior". 

Shing Ling, um órfão do Estado de Chin (Oeste), decidiu entrar na academia militar em 2006 quando ainda era adolescente. "Éramos como irmãos. Eu era feliz, me sentia em casa", lembra. 

Em 2011, a junta, que governou o país por quase cinco décadas desde sua independência em 1948, foi oficialmente dissolvida e Mianmar se abriu para o mundo com o advento das novas tecnologias.

O soldado então se interessou por política graças ao Facebook, a principal ferramenta de comunicação de milhões de birmaneses.

Em 2015, durante as primeiras eleições democráticas, ele até deu seu voto ao partido de Aung San Suu Kyi, a histórica adversária dos militares que passou 15 anos em prisão domiciliar durante ditaduras anteriores. "Meus amigos do Exército não ousaram votar (nela) por medo de seus oficiais superiores", diz.

Cinco anos depois, em novembro de 2020, decepcionado com a trajetória do governo de Suu Kyi, decidiu escolher outro partido. Mas três meses depois, o Exército destruiu a frágil democracia.

Desde então, quase 200 policiais e suas famílias fugiram de Mianmar e se refugiaram na vizinha Índia, de acordo com fontes da segurança indiana.

Shing Ling decidiu permanecer escondido em Yangon com uma pergunta para seus ex-companheiros que permanecem nas fileiras do Tatmadaw. "Se você tiver de escolher entre o Exército e o país, o que você decidirá?"/AFP 

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