Rodrigo Abd/AP
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Soldados dizem que Kadafi ordenou 'estupros coletivos' na Líbia

Militares afirmam que teriam sido obrigados a violentar quatro mulheres em Misrata, diz 'BBC'

BBC Brasil, BBC

23 de maio de 2011 | 14h39

MISRATA - Acusações de que as forças do líder líbio Muamar Kadafi estariam promovendo "estupros coletivos" durante batalhas contra rebeldes foram confirmadas por dois soldados a um correspondente da BBC no país. Detidos em Misrata, no noroeste da Líbia, os militares afirmaram que teriam sido forçados a estuprar quatro mulheres e deram detalhes da suposta campanha de Kadafi na região.

 

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O Tribunal Penal Internacional (TPI), que pediu a prisão do líder líbio por crimes contra a humanidade, já disse estar analisando provas sobre a ocorrência de estupros em massa no país.

 

Segundo o jornalista da BBC Andrew Harding, os soldados têm 17 e 21 anos e foram capturados pelos rebeldes há duas semanas. "Fomos trazidos para Misrata e nos disseram que a cidade estava sob ataque de mercenários argelinos e egípcios. Eles diziam que estávamos aqui para liberar Misrata", disse, em condição de anonimato, o militar de 17 anos ao repórter.

 

Estupros

 

Ele conta que após entrar na casa de uma família, o grupo em que estava amarrou e atirou na perna do pai, da mãe e de três meninos. "Depois, os comandantes levaram as meninas para o andar de cima e nos disseram para subirmos no telhado (para vigiar) enquanto eles terminavam de estuprá-las. Daí, nos mandaram estuprar as meninas também".

"Fiquei com medo. Mas quando a gente se recusou, eles começaram a nos bater. Eram quatro garotas, de 20 a 24 anos. Elas estavam conscientes. Eu estuprei uma".

Música e cigarros

Segundo o militar, as jovens não diziam nada. Estavam cansadas e feridas, e já tinham sido estupradas "por outros cerca de 20 militares". Ele conta que o estupro coletivo durou cerca de uma hora e meia e que, enquanto as garotas eram violentadas, os militares "ouviam música, dançavam e fumavam".

 

"Não estou feliz pelo que fiz, mas não tenho medo, quero deixar claro que os comandantes nos obrigaram a estuprá-las. Nos disseram que se fizéssemos isso, eles nos dariam dinheiro. E ganhamos 10 dinares (US$ 8). Foi a primeira vez que fiz sexo. Eu tenho quatro irmãs".

 

Interesses

 

Harding, da BBC, afirma que sua impressão era a de que a história contada pelos militares era verdadeira, mesmo tendo em mente o interesse dos rebeldes em retratar Kadafi da pior maneira possível - o que poderia incentivar os militares a mentir.

Ele também diz ter indicações de que os relatos não são histórias isoladas, mas fazem parte de uma campanha sistemática contra civis. "(Os estupros) aconteceram muitas vezes. A maior parte dos que violentaram famílias estava nas forças especiais. Ouvimos no rádio (no sistema de comunicação dos militares) que cerca de 50 famílias foram estupradas", disse o militar de 17 anos.

 

Centenas de vítimas

 

Os rebeldes que atualmente controlam Misrata afirmam que há centenas de vítimas, mas até agora nenhuma fez uma queixa formal. De acordo com Harding, uma das razões para isso é o fato de muitas famílias terem sido obrigadas a deixar a cidade - e outras estarem desaparecidas.

 

Ele também cita a possibilidade de o número de estupros ser bem menor do que o sugerido pelos rebeldes.

 

Mas, segundo o repórter, a causa mais provável está na cultura extremamente conservadora da Líbia - em Misrata principalmente - que considera estupro uma grande vergonha para toda a família e algo que não deva ser mencionado em público. "Essa é uma questão muito delicada", diz Ismael Fortia, obstetra que vive em Misrata. Ele integra uma comissão para investigar as acusações de estupros coletivos e tenta ajudar as vítimas.

"Ninguém falou nada até agora, mas esperamos que após uma ajuda psicológica, elas venham conversar conosco", disse Fortia, que também acredita que haja centenas de vítimas. "Isso (a violência sexual) afetou o povo de Misrata mais do que qualquer outra coisa durante os confrontos".

 

Vídeos

O médico confirmou duas histórias ouvidas por Harding na cidade. A primeira é a de que alguns rebeldes estão se oferecendo para casar com as vítimas "para livrar a família da vergonha".

A segunda diz respeito a vídeos dos estupros, que teriam sido gravados pelos militares com seus celulares. As imagens estariam circulando pela cidade. Em poder dos rebeldes, Misrata está cercada pelas forças de Kadafi há mais de dois meses.

 

Cumprindo uma resolução do Conselho de Segurança da ONU, a Otan realiza ataques aéreos para tentar proteger a população civil do conflito entre as forças do governo e os insurgentes. Em todo o país, cerca de 750 mil pessoas já fugiram desde o início dos combates.

 

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