Soldados vivem entre períodos de tédio e terror

Militares da base de Kala Gush travam ''batalha esparsa''

, O Estadao de S.Paulo

28 de julho de 2009 | 00h00

As pessoas dizem que a guerra é mesmo assim: horas de tédio, interrompidas por minutos de terror. Na base de Kala Gush, encravada no meio de montanhas na Província de Nuristão, leste do Afeganistão, o ditado cabe perfeitamente. Patrícia Campos Mello faz o diário do conflito no Afeganistão em seu blogCom 250 pessoas, sendo apenas 9 mulheres, a base fica diante do vilarejo de Nangarech, com 200 moradores.Quase todos os dias, os soldados saem da base para fazer patrulhas. Dificilmente há fogo cerrado. Trata-se de uma batalha esparsa. A maioria dos ataques é com bombas caseiras (IED, sigla em inglês) colocadas nas estrada, foguetes e atentados suicidas. Mesmo assim, o inimigo é imprevisível, como no Iraque. E Barg-e-Mattal está aí para confirmar. Barg-e-Mattal é uma base próxima de Kala Gush, que fica em uma região bem parecida, também em um vale. Nos últimos sete dias ela está sob fogo cerrado de insurgentes, que atacaram das montanhas pelos dois lados. Três soldados americanos já morreram.Até então, o capitão Luis Arriola, que tem na bagagem 15 meses de Iraque, estava "complacente", como se diz no jargão militar. "Já estava até dormindo nos trajetos para as missões, bem tranquilo, achando que nada ia acontecer." Uma granada, uma troca de tiros e a explosão de um IED o deixaram mais atento.Há quatro semanas, soldados foram verificar a torre de rádio e foram recebidos por granadas. Há três semanas, um Humvee foi atingido por um IED, capotou, e o atirador - o soldado que fica em cima, para fora do veículo - quebrou as duas pernas. "Ele foi para a Alemanha e graças a Deus não vai perder as pernas", contou Arriola.Estes são os minutos de terror. Nas horas de tédio, os soldados jogam pingue-pongue, basquete, videogame, fazem ginástica, navegam na internet. Kala Gush tem também uma capela e o capelão Lee faz estudos da Bíblia. A esmagadora maioria dos soldados fuma. Já beber é proibido desde a Guerra do Golfo. À noite, o local vira um breu. Só se pode andar com as lanternas de luz vermelha, para não haver alvos circulando na base.No refeitório, a comida não é ruim. Tem salada e frutas como pera, maçã, manga, pêssego. E não faltam as especialidades americanas - hambúrguer, donuts, muffins, asas de frango cheias de molho e frituras em geral.Ruim mesmo são as chamadas "refeições prontas para comer". São pacotes com prato principal, sobremesa, suco e saco "autoesquentável" - ao se adicionar água, a comida fica quente.A base é cercada de barreiras feitas com sacos de areia, muros altos e arame farpado, além de várias torres de segurança. Há ainda bunkers de concreto para o caso de ataques - nos últimos dois meses, Kala Gush foi alvo de cinco foguetes. Os soldados recebem um adicional de US$ 150 por mês por estar em região de "perigo iminente". Os que têm filhos ganham mais US$ 250 mensais como "compensação de separação".Nesse mundo masculino, ser mulher é complicado, conta Gina Costante, funcionária do Departamento de Estado, há três meses em Kala Gush. Sua função é dar consultoria de governança. "Saí de uma reunião agora porque um secretário da província estava roçando o pé no meu", ela conta. "Mulher ocidental é como se fosse um terceiro sexo aqui - é difícil os homens seguirem nossas ordens, sejam eles afegãos ou americanos." Em Kala Gush, Gina, de 42 anos, mora com outras três mulheres em um barraco de madeira com divisórias e pouquíssimo conforto. "É difícil, eu volto para os EUA e todo mundo está lá com família e filhos e eu sou a Gina aventureira", diz. "Na realidade, eles nem imaginam o trabalho difícil que estamos fazendo. Isso aqui não é reconstrução, é construção. A infraestrutura do país é mínima." Nenhum americano pode pôr os pés para fora da base. Em Kala Gush, há vários afegãos trabalhando como tradutores em troca de cidadania americana e um salário bastante razoável. Nem eles costumam sair. "Nunca mais poderei visitar meus parentes em Cabul", disse um tradutor. Primeiro, por medo de retaliação. "As pessoas sabem que a gente trabalha para os americanos." Depois, para não perder seu "aval de segurança". Afegãos levam até um ano e meio para obter autorização para trabalhar para o governo americano. O contato dos soldados com o Afeganistão é bem limitado. Eles só saem em veículos blindados, com seus capacetes e toda parafernália - o que deve intimidar os moradores locais. As vilas são todas formadas por casas de barro, a maioria delas sem luz elétrica. O ''Estado'' acompanha ofensiva anti-Taleban Os EUA estão lançando uma ofensiva contra o grupo rebelde. A correspondente do ?Estado? em Washington, Patrícia Campos Mello, está passando algumas semanas acompanhando os soldados americanos no Afeganistão. O resultado desse trabalho está sendo apresentado pelo ?Estado? e pelo portal Estadao.com, que inclui as postagens no blog da repórter.

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