Meridith Kohut/The New York Times
Meridith Kohut/The New York Times

Solidariedade evita mortes de crianças em Caracas

Ao menos 85 meninos e meninas de uma comunidade pobre da capital recebem almoço de segunda a sexta-feira feito com alimentos doados por ONG

O Estado de S.Paulo

20 Março 2018 | 22h33

CARACAS - No barraco que Yuleidis Marcano divide com seu marido e os seis filhos em uma comunidade pobre de Caracas, a fome pode ser uma sentença de morte.

Nas vésperas do ano-novo, quase morrem por comer mandioca dada por um vizinho que a cultivou sem saber que era uma variedade venenosa. "Minha filha Valeria e meu marido ficaram mal", lembra.

O episódio, registrado em La Vega (oeste da cidade) retrata o acesso limitado a alimentos em lares de extrema pobreza, em razão da hiperinflação e escassez que castigam a Venezuela.

"Com essa situação quase nunca temos comida", conta, cabisbaixa, Yuleidis, de 26 anos, com seu bebê de 2 meses no colo.

Seus outros filhos, no entanto, encontraram um paliativo na casa de Gabriela Vega, uma vizinha que lhes dá almoço de segunda a sexta-feira a 85 crianças dessa comunidade.

Leva comida ao local graças à "Alimenta la Solidaridad", programa da ONG Caracas mi Convive contra a desnutrição infantil.

Um estudo da organização Cáritas de agosto passado situou em 15,5% a desnutrição aguda em 32 localidades dos três Estados mais populosos do país.

Dos menores que Gabriela atende, a maioria só come mandioca. "O único lugar onde comem carne é aqui, até mesmo para muitos é a única refeição do dia", diz esta morena ativa de 35 anos.

Idade da pedra. O consumo do tubérculo prolifera por seu baixo custo, mas pode ser confundido com o que causou a morte, em fevereiro, de seis crianças e um adulto, segundo a deputada opositora Karin Salanova. Em 2017, foi reportada uma dezena de mortes.

Um grupo de estudantes com uniformes puídos espera para almoçar. Eles entram em grupos de 12 na pequena casa construída em uma ladeira onde antes havia um lixão.

Paredes de tijolos sustentam um telhado de zinco amassado.

O cheiro de sopa de carne com legumes passa pelos becos aonde se chega por escadarias estreitas. Devem comer depressa para que os demais possam entrar em seguida.

Uma oração antecede a primeira garfada: "Senhor, ajudai quem não tem nada para comer".

A Gabriela, com três filhos, disseram que um refeitório cria mais pobreza, mas ela justifica: "lá em cima moram pessoas tão pobres que a gente sente que ficaram na Idade da Pedra".

Embora o governo negue que haja uma crise alimentar e diga ter reduzido a pobreza extrema a 4,4% em 2017, a Encovi, um estudo em três universidades, a situou em 61,2%. 

Otimista, Mariela Vega, mãe de 'Gaby', põe tempero no cardápio. "Às segundas preparamos grãos, às terças massa com carne moída, às quartas sopa, às quintas batata com ovo e às sextas banana com salsicha".

Um batalhão de mães se reveza para ajudar.

Temor. Fermina Núñez, colombiana de 47 anos que chegou à Venezuela há 14, encontrou em Gabriela uma tábua de salvação para seus dois filhos. Enquanto esperam para comer, ela conta que há algum tempo pesava 68 quilos. "Agora peso 47".

A Encovi determinou que seis em cada dez venezuelanos perderam, em média, 11 quilos no último ano.

O governo implantou em 2016 um programa de venda de alimentos subsidiados em bairros pobres que - assegura - beneficia 6 milhões de famílias, mas há muitas queixas de que não chegam periodicamente.

O salário mínimo que o marido de Yuleidis ganha como funcionário público dá apenas para 30 ovos, "algum queijo e, talvez, farinha". Além disso, ela faz faxina "para comprar pelo menos pão ou mandioca", diz.

Ao mesmo tempo em que combate a fome, Gabriela exorciza um passado que a levou para a prisão durante 20 dias por roubo. Não quer que as crianças "admirem um bandido com pistola".

Convencida de que a pobreza gera delinquência, ela os incentiva a estudar e praticar esportes.

Em seu refeitório se respira alegria e isso anima Yoxander Segura, estudante de 13 anos que desfruta da comida que os pais não podem pagar. "Quero ser bombeiro", diz, sorridente.

Deixar de servir almoços incomoda 'Gaby', pois as duas semanas em que fechou para férias viu crianças que choravam de fome. "Me dá medo de não poder continuar". / AFP

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.