BEATRIZ BULLA / ESTADAO
BEATRIZ BULLA / ESTADAO

Solidariedade perdura após tornados destruírem cidade no Kentucky

Dias após dia, Mayfield, a face do desastre nos telejornais de todo o país, se tornava também um pólo de ajuda e solidariedade para vítimas das comunidades afetadas pela catástrofe 

Beatriz Bulla, Enviada Especial a Mayfield, Kentucky, O Estado de S.Paulo

04 de janeiro de 2022 | 11h33

MAYFIELD, EUA - Uma semana depois dos tornados que deixaram mais de 1 mil famílias com casas destruídas e ao menos 93 mortos, Mayfield, no Kentucky era uma cidade de árvores com o topo arrancado e prédios e casas demolidos.

Debaixo de chuva e lágrimas, moradores e socorristas tentavam limpar os escombros e militares organizavam o trânsito. Dia após dia, Mayfield, a face do desastre nos telejornais de todo o país, se tornava também um pólo de ajuda e solidariedade para vítimas das comunidades afetadas pela catástrofe. 

Nas esquinas, pequenos grupos quebravam o cenário cinzento em torno de tendas ou caminhonetes. Sorridentes, voluntários de diferentes partes do país fincavam placas no chão para oferecer "free and hot food".

Dar comida quente e grátis aos moradores de Mayfield foi um dos jeitos de mostrar apoio a quem perdeu casa, carro, trabalho, familiares e amigos. As iniciativas espontâneas, como a de americanos que encheram o próprio carro de mantimentos para distribuir o que podiam, entravam em harmonia com as doações organizadas por empresas, chefs de cozinha famosos e governo. 

Beth e Charlie Nance não conheciam aquela parte do país. Também não fazia parte dos planos do casal deixar as comemorações de 18 anos de casamento de lado para cruzar dois Estados de carro da Carolina do Norte até o Kentucky. Mas, ao verem as notícias sobre Mayfield, sentiram que a única coisa que fazia sentido era encher o carro de suprimentos e partir. 

A doação poderia chegar de qualquer forma, sem a presença dos dois no local, mas não se tratava apenas dos produtos, conta Beth. “Quando as pessoas chegam aqui, se sentem perdidas. Elas perderam tudo. E de repente olham para tudo isso, as doações à disposição, e ficam tentando entender o que devem fazer”, diz. 

Um grande galpão que serve como espaço de eventos na cidade passou a ser usado como um centro formal de distribuição. Quem chega registra seu nome com um dos voluntários e pega uma caixa de papelão ou um grande balde de plástico, onde vai colocando tudo o que precisa.

Os itens são organizados por setores e dispostos em mesas, que formam corredores. É como se as famílias passassem por gôndolas de supermercado, onde podem pegar o que quiserem -- de comida a lonas para cobrir o telhado, passando por lençois, brinquedos, roupas e itens de higiene. 

“Nós viemos para ajudar na logística, arrumar as coisas, reabastecer o que acaba, mas também ajudar as pessoas. Tentamos abordá-las e oferecer ajuda, entender do que precisam, e encher seus carrinhos. É uma ajuda para que consigam atravessar esse período, esse processo”, afirma Beth Nance, uma das voluntárias.

As pilhas de produtos acabam rápido e são imediatamente repostas pelos voluntários, que buscam tudo em um segundo galpão, onde agentes da FEMA, a agência federal que atende emergências, ajudam a concentrar doações de todo o país.

Trey Davidson entregava quentinhas em sacola de papel pardo para os carros que paravam próximo a uma tenda improvisada, em uma espécie de Drive Thru. Ele deixou os sete filhos em casa com a esposa e dirigiu oito horas, de Kansas, Missouri, para Mayfield, com sua minivan dourada cheia de mantimentos.

Depois de entregar tudo o que trouxe a uma igreja na região, que ajuda às vítimas, se juntou a um grupo de militares da reserva de que assava carnes para distribuir almoço no meio da rua.  

“Houve um tornado em 2011 no Missouri. E lembro que não havia Walmart, nem McDonald's, nada funcionando. Não sobrou nada. Por isso, eu senti que tinha de vir ao Kentucky. Eu sei o que esperar, do que eles precisam. E eles precisam de tudo, começando por comida”, afirma. “No Missouri, havia toneladas de doações de garrafas de água, eu me lembro, mas as pessoas precisam de outras coisas”, afirma Davidson, que quer ajudar também no trabalho de limpeza dos destroços. 

As histórias de quem dirigiu horas para passar parte dos dias ajudando vítimas do tornado se acumulam. São pessoas que vieram do norte de Iowa, Nova York, Tenessee e, especialmente, de outras partes do Kentucky. “O que você faz quando sabe que todos de uma região perderam suas casas? Nós, do Kentucky, temos uma má reputação por uma variedade de motivos, mas eu acho que é um Estado cheio de pessoas realmente boas que se unem e se esforçam muito para ajudar umas às outras nessas situações”, disse Maren McGimsew, que vive a três horas dali.

Procurando sua forma de ajudar, ela encontrou na internet inscrições para voluntariado no programa World Central Kitchen, capitaneado pelo chef espanhol José Andrés. Dono de restaurantes disputados e premiados na capital dos EUA e em outras grandes cidades, Andrés ganhou fama por abrir a organização que leva um restaurante itinerante para o epicentro de desastres. O projeto foi criado pelo chef de cozinha, em 2010, para atender sobreviventes do terremoto que atingiu o Haiti. 

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