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Solidarietà

Tem se tornado frequente que a direita se aproveite de um momento de comoção para ganhar notoriedade – e votos – à custa de tragédias

Adriana Carranca, O Estado de S. Paulo

27 Agosto 2016 | 05h00

No dia seguinte ao terremoto que destruiu vilarejos inteiros no centro da Itália e deixou mais de 250 mortos, o líder do partido de direita Liga Norte, Matteo Salvini, compartilhou em sua página no Facebook o post de um padre, Don Cesare, segundo o qual se deveria colocar os desabrigados da tragédia nos centros onde hoje vivem refugiados e transferir estes para as barracas onde estão provisoriamente os que perderam suas casas. Em poucos minutos, mais de 50 mil pessoas curtiram a publicação. Nas redes sociais comentários racistas e xenófobos inflados pela direita se multiplicavam; alguns sugerindo a expulsão de refugiados da Itália. 

Tem se tornado frequente que a direita se aproveite de um momento de comoção para ganhar notoriedade – e votos – à custa de tragédias. Quando Salvini assumiu a liderança da Liga Norte, em 2013, o partido era motivo de piada entre políticos e jornalistas italianos, após derrota histórica nas eleições daquele ano, quando obteve apenas 4% dos votos, aquém do mínimo necessário para garantir assentos no Senado. Este ano, porém, o partido conhecido por ataques verbais contra migrantes, oposição à União Europeia e elogios ao ditador fascista Benito Mussolini aparece em pesquisas com entre 16% e 17% de apoio entre a população. 

Como apontou recentemente o site Publico.com, se as eleições fossem hoje, a Liga Norte teria peso para forjar uma aliança com o Força Italia, de Silvio Berlusconi, e partidos nanicos de direita e governar por coalizão. Nas eleições regionais do ano passado, a Liga levou 20% dos votos na Toscana, região tradicionalmente de esquerda e berço político do premiê Matteo Renzi, que foi prefeito da capital, Florença.

Parte do “efeito Salvini” (como os italianos se referem ao crescimento da direita na Itália) se deu no rastro da ascensão de outros partidos e políticos conservadores na Europa. A convite de Salvini, partidos de direita se reuniram recentemente em Milão, para conferência sobre a formação de um novo grupo no Parlamento Europeu. Após o encontro, Salvini postou uma selfie no Facebook ao lado Marine Le Pen, do francês Frente Nacional, e Geert Wilders, da Holanda, com a legenda: “Não vamos nos render à invasão clandestina.”

Esses partidos perceberam na crise de refugiados a oportunidade para se tornarem relevantes. 

O cientista político Ilvo Diamanti, em entrevista ao Publico.com, atribuiu a ascensão da direita na Itália “ao aumento do nacionalismo que responde aos medos causados pela crise econômica e insegurança global e, em paralelo, a crescente pressão da migração”.

Mais de um milhão de migrantes chegaram à Europa no ano passado. O fechamento das fronteiras e o acordo da União Europeia com a Turquia levou muitos a optarem pela rota via Líbia com destino à Itália, que voltou a ser o principal porto de entrada na Europa para os que chegam por mar.

Assassinato. No fim de maio, milhares de italianos saíram às ruas em Roma em protesto contra a política de migração da União Europeia, que classificaram como uma “invasão” da Itália. Os manifestantes saíram da frente de um centro de recepção de refugiados na Piazza Vittorio gritando:

“Parem a invasão! Esta é a minha casa!”. Episódios de violência têm sido registrados com mais frequência nos vilarejos onde estão os centros para refugiados, como o espancamento fatal, por um adepto da extrema direita, do nigeriano Emmanuel Chidi Namdi, de 36 anos, após ele reagir a um ataque verbal racista contra sua mulher. Eles haviam deixado a Nigéria após sua igreja ser bombardeada pelo Boko Haram, matando os pais dele e a filha do casal. Quando fugiram, Chinyery estava grávida e, na travessia do Mediterrâneo, perdeu o bebê.

Nos dias que se seguiram ao terremoto de quarta-feira, enquanto comentários xenófobos e racistas se multiplicavam nas redes sociais, refugiados acolhidos na Itália se mobilizavam para ajudar as vítimas. Na Calábria, um grupo de 75 jovens de Nigéria, Gana, República Democrática do Congo, Benin, e outros, abriram mão da ajuda que recebem do governo italiano – € 2,50 por dia – para despesas pessoais, como parte do Sistema de Proteção para Refugiados, e pediram que o dinheiro fosse doado aos sobreviventes. É pouco para muitas famílias italianas, mas para os refugiados é tudo o que têm. Simbolicamente, foi um gesto de solidariedade importante. 

Em Ascolto, Arquata del Tronto e Benevento, eles estão ajudando o Departamento de Proteção Civil a limpar as áreas de escombros para facilitar o trabalho das equipes de emergência. Para muitos, foi a primeira vez que presenciaram os efeitos de um desastre natural como este, mas o cenário de destruição é familiar. Eles sabem o que é perder sua casa.

ADRIANA CARRANCA. ESCREVE AOS SÁBADOS 

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