Soljenítsin segue criando polêmica

Homenagem a autor, morto em agosto, é alvo de protesto

O Estadao de S.Paulo

27 de setembro de 2008 | 00h00

Assim como foi em vida, o Prêmio Nobel de Literatura Alexander Soljenítsin permanece, mesmo após sua morte, uma figura polarizadora na Rússia, um crítico feroz não apenas do comunismo, mas também do materialismo e da decadência pós-soviética.Assim, era talvez inevitável que o aparentemente simples ato de rebatizar uma rua moscovita em sua homenagem se tornasse uma tarefa complicada. Quando o presidente Dmitri Medvedev decretou, no mês passado, que fosse feito algo para preservar a memória do autor - que morreu em 3 de agosto, aos 89 anos - "pela extraordinária contribuição de Soljenítsin" à cultura russa, ele não estabeleceu uma data-limite nem designou uma rua específica. Mas o gabinete do prefeito Yuri Luzhkov rapidamente disse que a Bolshaya Kommunisticheskaya Ulitsa, ou Grande Rua Comunista, seria a partir de então conhecida como Ulitsa Soljenitsyna, ou Rua Soljenítsin, em homenagem ao autor cujo livro O Arquipélago do Gulag ficou famoso por revelar os horrores do sistema soviético e até mesmo por ter ajudado a derrubá-lo. Mas isso foi demais para os comunistas, que consideram Soljenítsin como pouco mais do que um traidor. Na quadragésima noite após a morte do autor - quando, segundo os costumes ortodoxos da Rússia, é feita uma homenagem à pessoa morta -, Vladimir Lakeiev, líder de uma facção do Partido Comunista em Moscou, criticou a mudança de nome da rua. Ele leu uma declaração na qual dizia que a Grande Rua Comunista foi batizada em homenagem aos comunistas que sucumbiram durante combates travados no local durante a Revolução de 1905 e a Grande Revolução Socialista de outubro de 1917. Rebatizar a rua - uma das mais preservadas de Moscou, com fileiras de elegantes mansões pré-revolucionárias - é "inadmissível" porque o nome atual "reflete o feito de comunistas que deram suas vidas pela liberdade, pela felicidade do povo e também pelo fortalecimento do Estado", afirmou Lakeyev.Em contraste, disse ele, Soljenítsin era "uma figura pública que dedicou a vida ao combate contra o Estado do povo soviético e expunha posições anticomunistas e antiestatais". ?FALSO PROFETA?As críticas vieram também da internet. Esta semana, o site da filial moscovita do Partido Comunista da Rússia divulgou uma nota dizendo que "cidadãos de todo o país continuam a expressar o seu desagrado em relação à campanha de canonização do falso profeta".Lakeyev enviou ainda uma petição ao escritório do procurador municipal de Moscou pedindo que a abertura de uma investigação a respeito da legalidade da decisão, dizendo que a lei afirma claramente que uma pessoa deve estar morta há mais uma década antes de uma rua poder ser batizada em sua homenagem. Em resposta, Vladimir Platonov, um importante dirigente do partido de Medvedev, o Rússia Unida, propôs a criação de uma brecha na lei, que suspenderia a restrição caso a mudança de nome tivesse como base um decreto emitido por autoridades federais.

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