'Solução de dois Estados para Palestina e Israel é ilusória'

Para analista, oito anos depois de divisão, Fatah e Hamas controlam territórios palestinos bem diferentes

MURILLO FERRARI, O Estado de S.Paulo

14 de junho de 2015 | 02h03

Oito anos depois de o Hamas assumir o controle da Faixa de Gaza, o processo de paz entre palestinos e israelenses está cada vez mais complexo, parte em razão da forma como ele foi negociado até agora, mas também porque as diferenças entre os dois grupos palestinos - a Cisjordânia é governada pela Autoridade Palestina (AP), controlada pela Fatah - são cada vez maiores. "O Hamas se considera o líder de direito dos palestinos, consequentemente, nega qualquer outro governo", disse ao Estado Jonathan Schanzer, vice-presidente de pesquisas da Fundação para Defesa das Democracias, de Washington. A seguir, trechos da entrevista.

O controle de Gaza pelo Hamas, há oito anos, dificultou as conversas de paz com Israel?

A melhor maneira de responder essa pergunta é deixando claro que hoje existem dois governos palestinos separados, em dois territórios distintos, com sistemas políticos diferentes e economias também. Isso faz com que não seja necessário uma solução de dois Estados, mas sim uma que contemple a criação de três Estados, o que torna ainda mais difícil alcançar a paz na região. De fato, acho que nunca estivemos tão longe de uma solução quanto estamos hoje. Também é importante deixar claro que a Faixa de Gaza está sob controle do Hamas, um grupo que rejeita a paz, e isso faz com que um possível acordo entre Israel e a AP, na Cisjordânia, deixe o cálculo político necessário para um acordo amplo muito mais complicado e mais distante do que estávamos oito anos atrás.

Por que o Hamas rejeita a paz?

Isso ocorre em dois níveis. Um é a rejeição da simples existência do Estado de Israel, algo que o Hamas se opõe de forma ideológica. O outro é o fato de o Hamas rejeitar a legitimidade da AP por se achar o líder de direito dos palestinos, consequentemente, negando qualquer outro governo.

Como um acordo entre israelenses e palestinos é visto hoje em Washington?

Acredito que o maior desafio é o fato de os diplomatas americanos continuarem defendendo um acordo de dois Estados, ignorando o fato de que os próprios palestinos não conseguem entrar em acordo para formar um governo único. Então, de certa maneira, é como se os diplomatas estivessem mentindo para eles mesmos e para a população a respeito da viabilidade de um acordo defendido pelo governo enquanto existir essa guerra civil, essa cisão entre os palestinos.

E quanto à tentativa de reconciliação que Hamas e Fatah anunciaram ano passado?

Isso simplesmente não existe. Até foi formado um governo de tecnocratas, com membros das duas facções, mas ele não tem influência no dia a dia político de Gaza. No fundo, o dois lados tinham expectativas dessa união que não se concretizaram. Enquanto o Hamas esperava conseguir usar essa aliança para reduzir seu isolamento e voltar a encontrar maneiras de se financiar, a AP esperava reduzir a rejeição que tem nas ruas.

O governo de Obama pode mudar sua abordagem sobre o tema?

Não, porque ele não está olhando da forma correta para os desafios sistêmicos envolvidos na união - ou na falta dela - entre os palestinos.

E qual seria a forma correta?

O governo insiste nas mesmas questões e dá preferência aos mesmo negociadores. Mahmoud Abbas, presidente da AP, está a 11 anos no cargo, mas foi eleito para um mandato de 4 anos e é com ele que os EUA insistem em negociar. Se formos capazes de ajudar na unificação dos palestinos, se um novo líder surgir, por exemplo, com capacidade de administrar tanto Cisjordânia quanto Gaza, eu acredito que Israel não teria desculpas para não negociar.

Existe alguém com esse perfil unificador hoje na Palestina?

Ainda não e o problema é que, ao mesmo tempo em que o Hamas não quer a paz, Abbas não tem dado espaço para concorrentes políticos dentro da AP. Na verdade, ele não tem sequer um vice-presidente, apenas ele que manda e isso faz com que seja muito difícil que novas lideranças ou alternativas apareçam. Não há, hoje, um bom plano de sucessão dos dois lados palestinos.

Como podemos entender a estratégia do Hamas de lançar foguetes contra Israel?

O Hamas está profundamente isolado economicamente porque os israelenses impuseram um bloqueio ao redor de Gaza e também porque eles não conseguem mais receber contrabandos do Egito através de túneis. O resultado disso é que Gaza não é mais capaz de se financiar, de se armar e, paradoxalmente, recorre à conflitos para forçar Israel a negociar, ainda que seja por intermédio de outros países, na esperança de recuperar parte de sua autonomia.

O que os países ocidentais podem fazer hoje por Gaza?

Gaza está numa profunda crise. Muitos governos gostariam de ajudar na reconstrução, mas temem que possa haver corrupção, que o dinheiro seja desviado para fins militares - não há confiança no Hamas. Existe muito risco e ceticismo de que esses financiamentos sejam utilizados para bancar um nova guerra em algum momento. Há toda a preocupação sobre como aliviar o sofrimento dos palestinos em Gaza, mas é muito difícil achar uma solução enquanto o Hamas estiver no controle.

Quanto um acordo nuclear do Irã beneficiaria o Hamas?

Muito. Sem as sanções, Teerã terá até US$ 120 bilhões a mais em caixa e não tenho dúvida de que parte disse será destinado para seus aliados na região, o que inclui o Hamas.

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