Solução de dois Estados corre perigo

Os países que têm mais influência na região devem votar a favor dos palestinos na ONU antes que seja tarde demais

GRO H. BRUNDTLAND & JIMMY CARTER / THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2012 | 02h05

Se os recentes lançamentos de foguetes contra Israel e os ataques aéreos israelenses contra Gaza nos ensinam algo é que deixar as coisas como estão no Oriente Médio não é uma opção segura nem para israelenses, nem para palestinos. No atual clima político, é muito improvável que se possa dar início a conversas bilaterais entre Israel e os palestinos. Faz-se necessária uma ação que modifique a dinâmica em vigor. Do alto de nossos anos e de nossa experiência na vida pública, acreditamos que o reconhecimento do Estado palestino pela ONU atende a essa necessidade.

Na quinta-feira, os países-membros da ONU votarão uma resolução que confere a condição de "Estado observador" à Palestina, um avanço significativo em relação à condição atual de "entidade observadora". Aconselhamos a todos os países-membros que votem a favor dessa resolução.

Ao recorrer à Assembleia-Geral, o presidente palestino, Mahmoud Abbas, não está embarcando num ato de provocação. Tampouco está minando a confiança ou se desviando da busca pela paz, como dizem seus críticos.

A aprovação da resolução é um voto a favor dos direitos humanos e do estado de direito. É totalmente consistente com o compromisso que os EUA, a Europa e o restante do mundo têm há décadas com uma solução de paz para o Oriente Médio, com base na criação de um Estado palestino viável, que exista lado a lado com Israel. Trata-se de um ato diplomático legal e pacífico, e está de acordo com resoluções prévias da ONU e com a lei internacional.

No entanto, é uma questão delicada e sabemos que muitos países pensam em se abster ou votar contra a resolução.

É provável que a rejeição da proposta represente o sepultamento da solução de dois Estados, empurrando-nos para um desfecho com um Estado apenas, com consequências incertas e potencialmente catastróficas para israelenses e palestinos.

Vejamos o que significaria um desfecho com um Estado apenas. São duas as possibilidades. Na primeira, Israel anexa a Cisjordânia e concede aos palestinos cidadania plena - coisa que parece improvável e acabaria por deixar os judeus em minoria no país. Na segunda possibilidade, Israel recusa a cidadania plena à sua população não judaica. Num caso, como no outro, nega-se aos palestinos o estado de liberdade e dignidade que é seu direito, e tampouco se garante ao povo judeu uma pátria segura e democrática.

Por outro lado, um apoio amplo à resolução estaria de acordo com aquilo em que a maioria das pessoas em todo o mundo - até mesmo em Israel e nos territórios palestinos - acredita: que a solução de dois Estados continua a ser o caminho mais certo para a paz no Oriente Médio.

Restrição. Há um mês, estivemos juntos no Monte das Oliveiras, numa visita às instalações do Augusta Victoria Hospital. Esse hospital palestino é um modelo de excelência no tratamento de câncer e está situado a apenas alguns quilômetros do restante da Cisjordânia. No entanto, os palestinos enfrentam enormes dificuldades para passar pelos bloqueios israelenses e ter acesso ao atendimento hospitalar de que necessitam.

Graças à posição geográfica privilegiada do hospital, de lá pudemos ver os assentamentos israelenses que vêm se espalhando pela Cisjordânia, assim como as cercas de arame, os muros altos e as estradas que separam cada vez mais os judeus e os árabes.

A taxa de crescimento dos assentamentos em Jerusalém Oriental e na Cisjordânia é assombrosa. Há mais de 500 mil colonos israelenses vivendo além da Linha Verde, em desrespeito à lei internacional. Esse número mais que dobrou desde os acordos de paz celebrados em Oslo, em 1993. Milhares de outras moradias em assentamentos estão sendo projetadas ou estão em construção.

Retrocesso. O processo de paz estabelecido em Oslo não está apenas paralisado. Há um retrocesso a passos largos. A cada nova família palestina que é desalojada ou cuja casa é demolida, a cada nova moradia que é construída além da Linha Verde para abrigar colonos judeus, a integridade do território prometido aos palestinos fica mais comprometida.

A aprovação da resolução ajudará a preservar a solução de dois Estados e melhorará as perspectivas de uma nova rodada de negociações.

Esperamos, além disso, que as ameaças de aplicar punições financeiras, ou de qualquer outra natureza, aos palestinos - por terem recorrido a uma alternativa a que eles tinham todo o direito de recorrer - sejam retiradas. Há quem diga que a votação deveria ser adiada. Mas isso é só uma tentativa de não fazer nada.

A desilusão e o cansaço que predominam entre israelenses e palestinos pedem líderes internacionais dispostos a agir com ousadia. Sabemos que há muitos israelenses que compartilham da nossa visão de que retomar a solução de dois Estados é fazer reviver a própria viabilidade da paz e, portanto, está de acordo com o interesse fundamental de Israel. Instamos principalmente os países que detêm mais influência sobre as duas partes envolvidas - os EUA, a União Europeia e os países árabes - a votarem juntos a favor da resolução, salvando, assim, a solução de dois Estados, antes que seja tarde demais. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

GRO H. BRUNDTLAND É EX-PRIMEIRA-MINISTRA DA NORUEGA / JIMMY CARTER É EX- PRESIDENTE DOS EUA ENTRE 1977 E 1981 E PATROCINOU OS ACORDOS DE CAMP DAVID, EM 1978, E O TRATADO DE PAZ ENTRE EGITO E ISRAEL EM 1979

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