Solução negociada com Taleban é improvável

O presidente afegão, Hamid Karzai, tem se empenhado nos últimos meses para mostrar ao mundo que está disposto a superar rivalidades tribais e étnicas em nome de um diálogo nacional irrestrito - a chamada "solução política" para os nove anos de guerra. Mas analistas afirmam que as chances de Karzai, fraco e deslegitimado, sentar-se à mesa com figurões do Taleban para forjar um acordo são mínimas.

Roberto Simon, O Estado de S.Paulo

21 de julho de 2010 | 00h00

Com o agravamento da situação militar, os EUA e o governo afegão decidiram apostar em duas frentes políticas. A primeira, de "reintegração", busca cooptar o baixo escalão taleban com recompensas financeiras e concessões políticas pontuais. Apesar das dificuldades, a iniciativa tem obtido alguns resultados. A segunda, de "reconciliação", pretendia estender a mão a líderes da insurgência e tem se provado um absoluto fracasso.

Marvin Weinbaum, ex-funcionário da inteligência americana especializado no Sul da Ásia, enumera elementos que contribuem para a falência da "solução política". O Taleban nunca esteve tão forte e "não precisa negociar", diz ao Estado. Ao mesmo tempo, líderes da insurgência entendem que o tempo joga apenas contra as forças da Otan, envolvidas numa guerra cada vez mais "infinita e invencível".

Mas o principal argumento diz respeito à lógica por trás da ação política do Taleban. "Eles não querem a chefia de um ministério ou de uma agência do governo Karzai. Querem é derrubar o Estado e instaurar um regime sob a sharia", diz Weinabum.

No mês passado, Karzai fez uma grande reunião tribal, que ficou conhecida como "jirga da paz". No encontro, líderes de todo país defenderam a integração do Taleban ao governo - embora nenhum insurgente tenha sido convidado para a cúpula.

E não é só a proposta de negociação que está sendo questionada. Em artigo na última edição da revista Foreign Affairs, o analista militar Stephen Biddle defendeu que o objetivo militar número 1 da Otan no país, "criar um Estado centralizado", vai contra a história e a cultura afegã. A missão, assim, estaria desde o início fadada ao fracasso. O caminho mais viável, diz Biddle, seria um modelo descentralizado "de soberania mista".

Ousada, a proposta vai contra a estratégia do general David Petraeus, que substituiu no mês passado Stanley McChrystal no comando das forças aliadas no Afeganistão. Mentor do plano de contrainsurgência que isolou a Al-Qaeda no Iraque, Petraeus quer conquistar o apoio da população afegã construindo um Estado capaz de prover serviços básicos e, sobretudo, segurança.

Os desafios ao plano do novo comandante americano são imensos. Uma pesquisa do instituto Icos revela que 74% dos afegãos afirmam que trabalhar com as forças da Otan é "errado". Mais: quase 70% não acreditam que as forças estrangeiras busquem proteger a população.

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