Sombra de uma guerra sem fim

Sessenta anos após a assinatura de um armistício entre as Coreias, o temor de um novo conflito ainda ronda a península

Charles Hanley, O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2010 | 00h00

ASSOCIATED PRESS

Um trovão distante sacudiu as vidraças quando Hong Il-sik, então um garoto de 14 anos, acordou. Mas eram disparos de artilharia, naquela manhã de 25 de junho de 1950, o início de uma guerra que nunca terminou. "Nunca imaginei isso", diz, fazendo uma retrospectiva 60 anos depois.

Mas o general Paik Sun-yup não se surpreende com a resistência desse impasse sem fim. Conhecendo o inimigo, os comunistas da Coreia do Norte, "achávamos que poderia ser um conflito muito longo", dizia o general, hoje com 90 anos. Essa guerra sem fim começou naquele longínquo domingo quando a Coreia do Norte invadiu o sul para tentar reunificar a nação, uma colônia japonesa libertada e dividida em duas em 1945 pelos soviéticos, os vitoriosos da 2.ª Guerra.

De início, os invasores quase derrotaram as forças sul-coreana e americana da península, mas vieram reforços dos EUA e os norte-coreanos foram rechaçados, com as forças sul-coreanas avançando para dentro do território da Coreia do Norte. No final de 1950, a China comunista envolveu-se no conflito e suas divisões forçaram a saída dos sul-coreanos e americanos para a parte do território que lhes pertencia. Durante dois anos travaram uma guerra dispendiosa por um pequeno pedaço de terra, um conflito que acabou num impasse, com um armistício assinado em julho de 1953 - que não significou uma paz, mas uma guerra adiada.

As duas Coreias reconstruíram suas economias industriais devastadas, com o Norte se tornando um Estado de partido único, autoritário, e o Sul se transformando numa potência capitalista sob um repressivo governo militar que, nas duas últimas décadas, converteu-se numa democracia civil.

O pânico da guerra reaparece regularmente, como se observou quando da captura pelos norte-coreanos, em 1968, de um navio de guerra americano, até a velha disputa sobre o programa nuclear norte-coreano, e o naufrágio, em março, de um navio de guerra sul-coreano.

Por que essa situação de não guerra e não paz arrasta-se há 60 anos? Para o estudioso sul-coreano Shen Zhihua, as quatro grandes potências - EUA e Japão, de um lado, China e Rússia de outro, preferem que a situação fique como está. "Uma Coreia unificada poderia se alinhar com uma potência ou outra e abalar o equilíbrio regional."

A Guerra Fria acabou há uma geração e a guerra coreana prossegue. Para o historiador Park Myung-lim, a liderança de Kim Il-sung e do seu filho Kim Jong-il é a grande responsável por causa de sua visão errônea do mundo e à política militarista e belicosa. Mas para ele é também uma falha dos EUA.

Apesar da normalização das relações com Rússia, China e Vietnã, os EUA "preferiram o controle no lugar de uma coexistência pacífica com a Coreia do Norte", disse. "Washington é muito maior e mais forte que Pyongyang, mas em 60 anos não conseguiu trazê-los para a comunidade internacional."

Isso é porque "nunca conhecemos nosso inimigo", disse o professor da Universidade de Chicago, Bruce Cumings, cujo novo livro, A Guerra Coreana, aborda um estudo que fez sobre o importante episódio do século 20. "Quando a União Soviética desmoronou, em 1991, essa hipótese sobre a natureza do regime levou-os a prever que a Coreia do Norte também desmoronaria em seguida. Mas 20 anos depois ela ainda está de pé."

Cumings defende um entendimento melhor dos norte-coreanos, um povo bombardeado até quase a extinção pelos americanos na guerra entre 1950 e 1953. "Sabendo disso, você pode compreender como os norte-coreanos nos veem, os ressentimentos que eles guardam", disse o professor.

A guerra coreana provocou a morte de entre 2,5 milhões e 4 milhões de pessoas. Hoje, cerca de 10 milhões de sul-coreanos estão separados da família no norte. "O povo coreano jamais imaginou que seria separado. Esse foi o início da tragédia. Para os coreanos do Norte e do Sul, o que importa hoje é evitar, a qualquer custo, uma segunda guerra. Será a morte de todos nós", diz o general Paik. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É CORRESPONDENTE

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