Sombras da ditadura e da tortura envolvem nascente democracia egípcia

Violência. Enquanto candidatos à presidência faziam campanha para o primeiro turno, o chamado 'Estado profundo' punha em marcha a repressão da era Mubarak, perseguindo, prendendo e torturando os que defendem liberdade e mudanças em seu país

ROBERTO SIMON , ENVIADO ESPECIAL / CAIRO, O Estado de S.Paulo

27 Maio 2012 | 03h06

Há três semanas, enquanto candidatos egípcios entravam na reta final da campanha, o engenheiro elétrico Ahmed A., de 28 anos, aguardava com as mãos atadas às costas por um cinto de couro, dentro de uma prisão militar em algum lugar do Cairo. Ele estava com cerca de 50 pessoas em um corredor estreito e, como quase todos ali, trazia no corpo marcas de espancamentos sofridos em poder dos soldados.

O primeiro turno disputado na semana passada e a história de Ahmed são duas faces de um mesmo Egito em transição, entre votos e denúncias de tortura. Poucos acreditam que um novo governo civil conseguirá controlar o que analistas chamam de o "Estado profundo" do Cairo - uma intrincada rede de agências de segurança, militares e civis, que opera de modo soberano desde a queda do ditador Hosni Mubarak.

O engenheiro elétrico está sendo processado na Justiça militar e aceitou contar sua história ao Estado sob a condição de que seu nome completo e imagem não fossem revelados.

Ahmed foi detido após uma manifestação diante do Ministério da Defesa, no bairro de Abassyia, no dia 4. Uma multidão de ultrarradicais salafistas havia se juntado na região para protestar contra o veto da Justiça à candidatura de um de seus líderes, Hazem Abu Ismail. O protesto converteu-se num violento confronto entre militares e manifestantes. Secular, o engenheiro diz que decidiu se juntar aos ultrarradicais após ouvir no rádio que "havia pessoas morrendo" na confusão. "Fomos apoiá-los, em nome da revolução."

A praça de guerra diante do ministério estava dividida por uma cerca, construída pelos militares para isolar os manifestantes. Muitos caíam ao chão asfixiados pelo gás lacrimogêneo ou derrubados por canhões d'água, conta Ahmed. Na multidão, pessoas vestidas como membros das forças de segurança à paisana, segundo ativistas, abriram fogo contra os manifestantes.

Os sons de tiro fizeram o engenheiro e centenas de manifestantes buscar abrigo na mesquita de Al-Nur. O templo acabou cercado pelos militares e, após uma tensa negociação, o general Hamdi Badeen ordenou a invasão do local. "Eles entraram de coturno na mesquita", protesta Ahmed - em um tempo islâmico, calçados sempre são deixados do lado de fora, em sinal de pureza e respeito, e a decisão do general Badeen foi motivo de revolta.

Interrogatórios. Os manifestantes foram levados para fora da mesquita. Eles pediram que o xeque Hafez Salama, que cuida da mesquita, os acompanhasse como garantia de que nada ocorreria, mas os militares não aceitaram. O único jornalista que estava no templo, um fotógrafo egípcio, teve sua câmera estraçalhada no chão, enquanto todos entravam em carros do Exército. Dentro do veículo, Ahmed diz ter sido severamente agredido. Uma mulher ao seu lado teria levado um tapa na cara de um sargento.

O engenheiro não sabe para onde foi levado, mas diz que é uma instalação militar em algum lugar da capital. Foi interrogado várias vezes, entre golpes de bastões, socos e pontapés. Outros manifestantes que, em vez de correr para a mesquita, tentaram fugir pelo metrô, também foram levados para o local. Foram colocados juntos, em um estreito corredor.

Após as sessões de interrogatório, sem auxílio médico para tratar os ferimentos, Ahmed foi levado à prisão militar de Tora, onde diz ter sido bem tratado. Mas detentos que estavam em outros blocos da prisão teriam sido novamente torturados. No ano passado, Tora abrigou por alguns meses um preso especial: Hosni Mubarak, recém-deposto. Hoje, o ex-ditador de 84 anos está em um hospital.

Do centro de detenção, o jovem foi levado à Corte Militar C-28. No tribunal, escutou ao mesmo tempo a acusação que lhe estava sendo imputada - agressão a funcionários do Estado - e gritos de manifestantes que protestavam do lado de fora contra os julgamentos militares. Após 15 dias na prisão, foi solto e agora responde em liberdade.

"Mais de 250 pessoas que estavam em Abassyia receberam tratamento igual ou pior que o de Ahmed", afirma Maha Mamoon, diretora da ONG Não aos tribunais militares. Em menos de um ano e meio desde a queda de Mubarak, estima-se que mais de 12 mil civis foram julgados em cortes marciais. "Documentamos o uso de choques elétricos contra ativistas, além de vários casos de abuso sexual", diz Maha.

Um recente relatório publicado pela Human Rights Watch afirma que o número de civis ainda detidos pelos militares no mês das eleições é de pelo menos 350, incluindo 19 mulheres e 10 crianças. Em protesto pela libertação desses presos, centenas de ativistas, incluindo um candidato presidencial, Khaled Ali, fizeram 24 horas de greve de fome.

"O brutal espancamento de manifestantes homens e mulheres demonstra que os militares (egípcios) não têm a menor noção de seus limites", afirma Joe Stork, um dos responsáveis pela investigação da ONG. O Conselho Supremo das Forças Armadas do Egito afirmou que estava "protegendo (os manifestantes) deles mesmos, pois, se alguém chegasse perto do Ministério da Defesa, nós teríamos o direito de agir em legítima defesa".

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