Sombras projetadas pela guerra afegã

Uma curiosidade pouco comentada das eleições afegãs foi que, a despeito de como o processo foi limpo ou fraudulento, o destino do país repousa em eleitorados de nações que enviam seus soldados para lutar ali.

Alan Cowell *, O Estadao de S.Paulo

09 de setembro de 2009 | 00h00

E, com as baixas de estrangeiros atingindo os níveis mais altos em oito anos, esses eleitorados remotos não revelam muito apetite por um conflito que parece tanto opaco como mortal. Se fosse votar hoje conforme os números das pesquisas de opinião, a maioria dos europeus, assim como muitos americanos, optaria pela retirada das forças de seu país ao risco de mais mortes, feridos e perigos.

Para cada líder europeu que procura se consolidar como um leal aliado dos EUA, a guerra no Afeganistão traz os mesmos altos riscos políticos enfrentados por Barack Obama: os sacos para cadáveres que trazem os corpos não só encorajam o Taleban como colocam em questão o compromisso dos estrangeiros com uma terra que há séculos vem expulsando intrusos.

Se algum dia o Afeganistão for "ganho" (seja como for que isso seja computado), qualquer nação com um soldado no campo de batalha reivindicará o triunfo, apesar de os principais combatentes - e baixas - serem americanos ou britânicos.

Mas se ele for "perdido" - se o Taleban sobreviver e a determinação do Ocidente vacilar - a guerra do Afeganistão passará para a história como uma guerra órfã, amortalhada pelas mesmas questões de culpa e derrota que rondam o Vietnã.

Mas aos olhos de seus próprios eleitores, EUA e Grã-Bretanha assumirão a principal responsabilidade: eles forneceram o grosso das forças estrangeiras - 9.100 britânicos e mais de 65 mil americanos.

Já a França tem 2.900 soldados. Mas Paris está pouco disposta a arriscar-se a um debate em casa enviando mais soldados. Pesquisas indicam que dois terços dos franceses querem a volta de seus soldados.

Na Alemanha, o pacifismo foi costurado na psique nacional desde a derrota nazista. Mas o governo da chanceler Angela Merkel deslocou 4.200 soldados para o norte do Afeganistão, em regiões mais seguras.

Na Grã-Bretanha, o Afeganistão lança uma sombra particular, entrelaçada com as lições tétricas de campanhas sangrentas no "grande jogo" por influência imperial do século 19. Com eleições em 2010, o premiê Gordon Brown tenta persuadir eleitores de que a campanha merece ser levada adiante.

Em 2001, o então secretário da Defesa, Jack Straw, disse que a questão era "não virar as costas novamente para o Afeganistão". "Ficaríamos felizes de sair em três anos e sem disparar um tiro porque nosso trabalho é proteger a reconstrução", disse John Reid, secretário da Defesa em 2006.

Muito tiros foram disparados nesses três anos. Como disse Brown, o objetivo é "impedir que o Afeganistão se torne o refúgio de terroristas que já foi". Brown ressaltou que, com a segurança nacional de seu país em jogo, "não podemos sair".

Quando políticos ocidentais afirmaram que a presença militar estrangeira havia ajudado a tornar a eleição segura, jornais britânicos reportaram que quatro soldados morreram num distrito onde somente 150 pessoas confiaram o bastante nas promessas de proteção estrangeiras para votar.

"Precisamos nos perguntar que objetivos estamos buscando", disse o chanceler francês, Bernard Kouchner. "Os EUA mudaram sua estratégia com Obama. Eles entenderam que se não se convence o povo, a causa já está perdida."

* Alan Cowell é especialista em assuntos internacionais

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