Sonhando com um super-herói

Obama perdeu o poder de magnetizar multidões e mostrou-se fraco diante de um Congresso fisiológico

MAUREEN , DOWD , THE NEW YORK TIMES, , É COLUNISTA, MAUREEN , DOWD , THE NEW YORK TIMES, , É COLUNISTA, O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2012 | 06h38

Na sexta-feira à noite, a capital dos EUA estava sob um alerta de tornado. E essa foi a melhor coisa que ocorreu com a Casa Branca em toda a semana. Enquanto o presidente era estapeado por Mitt Romney por ser fraco demais em segurança nacional, um editorial do New York Times o criticava por ser agressivo demais em segurança nacional.

O artigo do Times, assinado por Jo Becker e Scott Shane, revela que o liberal professor de direito que fez campanha contra a tortura e a guerra do Iraque agora toma pessoalmente as decisões finais sobre a "lista da morte", os alvos para os ataques de aviões não tripulados (drones). "Uma campanha de morte unilateral é insustentável", afirma o editorial.

Na quinta-feira, Bill Clinton de novo telegrafou que considera Obama um peso leve que não deveria ter suplantado sua mulher, Hillary. Contradizendo francamente o tema de campanha de Obama de que Romney é um aventureiro corporativo sem coração, Clinton disse à CNN que o histórico do republicano na Bain (firma de investimentos Bain Capital) foi "soberbo".

Fazendo a cobertura de um divertido W (George W. Bush) no descerramento de seu retrato, a imprensa que cobre a Casa Branca pareceu saudosa do presidente que fez estragos no Afeganistão, no Iraque, no Katrina e na economia - um sinal seguro de que a magia de Obama está definhando.

Na sexta-feira, um relatório ruim sobre o mercado de trabalho acarretou o pior dia do ano no mercado acionário. Enquanto a recuperação definhava, o presidente dizia a uma multidão na fábrica da Honeywell em Golden Valley, Minnesota, que "nossa economia ainda está enfrentando alguns embaraços sérios" e sendo sugada para o sumidouro da Europa. Em imagens deprimentes para o começo da campanha de verão, canais a cabo mostravam a seta do índice Dow vermelha apontando para baixo enquanto Obama falava. O Dow (índice de cotação de ações Dow Jones) perdeu tudo que havia ganho em 2012.

O presidente, que começou causando tanta empolgação, agora parece incapaz de estimular a economia e os eleitores. Sua campanha está oferecendo ímãs de carro Obama 2012 por uma doação de US$ 10, coleiras de gato com os dizeres "Eu Mio por Michelle" por US$ 12, uma espátula para grelhados Obama por US$ 40 e moletons e camisetas com desconto. A que ponto chegaram os poderosos!

Antes entusiástico, seu tratamento pela imprensa favorável está sendo queimado. "Num grau muito real, o candidato da esperança de 2008 está prestes a se tornar o candidato do medo de 2012", escreveu John Heilemann na revista New York, notando que, como Obama sente que não pode explorar seu histórico de governo na campanha, ela se escudará no bombardeio a Romney.

Em seu novo livro, A Nation of Wusses (Uma nação de fracotes, em tradução livre), o democrata Ed Rendell, ex-governador da Pensilvânia, pergunta como "o melhor comunicador na história das campanhas" perdeu seu dom. O lendário orador que atraiu multidões e inspirou uma nação desanimada terminou despreocupadamente delegando poder a um Congresso fisiológico, desaproveitando o palanque privilegiado da presidência, rejeitando qualquer embate duro ao estilo Lyndon Johnson com o Congresso e o público americano, e cedendo o controle de sua narrativa.

Como presidente, Obama nunca sentiu a necessidade de explicar ou vender seus projetos de lei demarcadores - os anteprojetos de estímulo econômico e de reforma da saúde, ou estancar o fluxo de informações falsas do outro lado. "O governo perdeu a guerra das comunicações com consequências desastrosas para a eleição de 2010", escreve Rendell, e Obama nunca obteve crédito pelas duas peças de legislação com que ele cortejou a grandeza.

O presidente tinha sonhos grandiosos de ser o grande aglutinador e conciliador. Mas numa reunião para levantamento de fundos em Minneapolis ele admitiu que é apenas mais um combatente numa capital repleta de rivalidades partidárias sectárias. Sem concessões, apenas niilismo.

Biografia. Se vencer a eleição, "a febre pode ceder", disse ele. "Minha esperança, minha expectativa, é que após a eleição, quando o objetivo de bater em Obama não fizer muito sentido porque não estarei concorrendo novamente, podemos começar a obter alguma cooperação de novo." Em sua nova biografia, Barack Obama: The Story, David Maraniss escreve que um colega de quarto do jovem Obama o comparou ao protagonista de Walker Percy no romance The Moviegoer (O frequentador de cinema, em tradução livre): um observador da própria vida, relacionando-se indiretamente com ela.

O chefe de Obama no seu emprego de organização da comunidade em Chicago, Jerry Kellman, observou: "Ele não se dispunha a correr riscos, mas era simplesmente essa estranha combinação de alguém que teria de pesar tudo até a morte e depois assumir um risco dramático no fim. Ele relutava em fazer confrontos, em pressionar o outro lado porque este podia explodir. Mas uma coisa que Alinsky (o organizador comunitário e escritor Saul David Alinsky) compreendia é que dentro do razoável, quando uma coisa explode, em certa medida, ela não prejudica, mas ajuda".

O livro de Maraniss descreve Obama em uma odisseia intensa de autoconhecimento, avançando para definir -se menos como um homem meio branco com namoradas brancas do que como um homem negro que queria fazer parte de uma comunidade negra.

Sua namorada de Nova York, Genevieve Cook, disse a Maraniss que Obama lhe confessou que "se sentia um impostor. Porque era tão branco. Não havia praticamente um osso negro em seu corpo". Quando ela previu que seu futuro poderia ser com uma mulher negra - "aquela dama negra, forte, esbelta, borbulhante está à sua espera em algum lugar", ela escreveu em seu diário. Ele lhe disse que "duvidava que houvesse alguma mulher negra com a qual se sentiria realmente confortável". Obama quis sair do mundo corporativo que achava tão detestável - ele se descreveu como "um espião atrás das linhas inimigas" - e se reinventar como político.

Na CNBC, na sexta-feira, Romney criticou Obama por estar "mais focado nas suas perspectivas de feitos legislativos históricos do que em recolocar pessoas no trabalho". Um presidente focado em realizações históricas? Quem diria. Mas de sua maneira capenga, Romney desvendou o problema de Obama: o frequentador de cinema prefere pairar acima, com reservas, em névoas grandiosas.

Como relata Maraniss, Obama disse que gostava de ler Hemingway em razão da "integridade na captação daqueles tempos, daquelas visões, que são as de verdadeira magnificência e profundidade" de "Papa" Hemingway.

Genevieve Cook disse a Maraniss que achava que o desejo de Obama de "representar uma vida de super-herói" era "um arquétipo muito forte em sua personalidade".

Mas super-heróis e figuras míticas precisam liderar corajosamente. A cautela de Obama - entranhada de uma vida de alguém abandonado pelo pai e, às vezes, pela mãe, e de ser, como ele escreveu a outra namorada, "apanhado sem uma classe, uma estrutura, uma tradição para me sustentar" - por vezes o limitou.

De certa forma, ele ainda está se conhecendo, absorto demais para ver o que não está funcionado. Mas a Casa Branca é um lugar muito duro para se buscar uma visão, em especial com uma tempestade se formando. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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