Sonho americano de paz no Oriente Médio

Mais do que nunca os EUA esperam alcançar um acordo entre palestinos e israelenses, pois creem que pôr fim ao conflito é fundamental para resolver os próprios dilemas regionais

ETHAN BRONNER, O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2010 | 00h00

O general Keith W. Dayton, que no mês passado deixou Israel, onde supervisionou o treinamento das forças de segurança palestinas durante cinco anos, gostava de contar a história da sua primeira missão no Oriente Médio. Encarregado de localizar as misteriosas armas de destruição em massa do Iraque, após a deposição de Saddam Hussein, em 2003, Dayton não achou nenhuma arma, mas encontrou uma outra coisa nos alojamentos militares iraquianos - os desenhos da Mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém, esmagada por uma serpente identificada como Israel. Ficou impressionado ao ver que, a centenas de quilômetros de distância da Terra Santa, o conflito árabe-israelense era sentido de maneira tão premente e significativa.

Para compreender o obstinado esforço americano em manter vivas as conversações entre Israel e os palestinos vale a pena tentar se colocar no lugar de Dayton por um instante. Desse modo, é possível compreender por que, sob muitos aspectos, os Estados Unidos experimentam uma urgência e um ímpeto mais fortes para a realização de conversações de paz do que os próprios palestinos e israelenses.

Desconfiança. Em Jerusalém, nenhum dos dois lados acredita nas intenções sérias do outro em termos de um compromisso real, e cada um cultiva ativamente a atitude de vítima histórica. Washington, por outro lado, acredita piamente que pôr fim ao conflito é fundamental para deslindar seus próprios dilemas regionais estratégicos.

"Todo embaixador americano na região sabe que as reuniões com os líderes árabes começam com uma dissertação obrigatória de meia hora sobre a questão palestina", disse um diplomata americano que passou grande parte de sua carreira no Oriente Médio e pediu para não ser identificado. "Se pudéssemos dispensar essa meia hora e ir direto ao assunto, chegaríamos a algo mais concreto".

Na semana passada, o governo Barack Obama tentou convencer Israel a decretar um congelamento de 90 dias das construções de casas para os colonos na Cisjordânia a fim de que os palestinos possam retomar as conversações diretas interrompidas após o fim do congelamento anterior, em setembro.

Para obter novo congelamento, mais 20 caças foram acrescentados à oferta anterior de 20 aeronaves a ser vendidas a Israel - desta vez como presente. Ou seja, Israel compraria um e levaria outro de graça. Além disso, a secretária americana de Estado, Hillary Clinton, apresentou ao premiê Binyamin Netanyahu garantias específicas de apoio diplomático em 2011 a fim de facilitar os esforços para chegar a um acordo final com os palestinos, que na opinião de muitos fracassarão, como todos os outros nos últimos 17 anos.

Vale a pena notar que o conflito palestino-israelense perdeu em grande parte sua violência mortal nos últimos anos. Além disso, os palestinos estão cada vez mais divididos entre a Cisjordânia, liderada pelo Fatah, e a Faixa de Gaza, liderada pelo Hamas, enquanto o governo israelense é dominado por políticos favoráveis à ampliação dos assentamentos, na maior parte contrários à criação de um Estado palestino.

Calma. Em outras palavras, a disputa está mais calma do que esteve em vários anos, o que, na lógica brutal do Oriente Médio, significa que nenhuma das duas partes está disposta, neste momento, a aceitar aos necessários compromissos. Então, para que tanta pressão? A resposta tem vários níveis, mas o mais importante é o fato de que os EUA acreditam que, se conseguirem acabar com o conflito palestino-israelense, seu tenso relacionamento com o mundo muçulmano melhorará, permitindo-lhes realizar em grande parte o que atualmente parece muito distante em lugares como Iraque, Irã e Afeganistão, sem mencionar que poderia facilitar seu papel de avalistas mais importantes da própria segurança de Israel.

O general James Jones, que recentemente deixou o cargo de assessor de Segurança Nacional de Obama, afirmou muitas vezes aos visitantes que, se pudesse optar por um tema de política externa seria o conflito palestino-israelense, pois sua resolução ajudaria a solucionar todos os outros. O general David Petraeus, que comandou os esforços de guerra dos EUA no Iraque e agora no Afeganistão, disse ao Congresso, este ano, que o fato de não haver nenhum avanço no conflito palestino-israelense criou um ambiente hostil para seu país na região.

Não que os americanos devam abandonar Israel, seu fiel aliado, ou permitir que os interesses vitais do país sejam prejudicados em um acordo de paz. A ideia é que, se o conflito palestino-israelense fosse resolvido, o sentimento antiamericano no mundo islâmico diminuiria, as perspectivas americanas em suas guerras no Iraque e Afeganistão melhorariam, e os governos árabes achariam mais fácil cooperar com Washington enquanto os EUA procuram reduzir as ambições iranianas.

Muitos israelenses menosprezam esta ideia pois, segundo eles, equivale a acreditar numa magia. "Vamos mudar de estratégia", sugeriu Mark Heller, pesquisador do Instituto de Estudos sobre Segurança Nacional da Universidade de Tel-Aviv. "Suponhamos que vocês resolveram o conflito ou Israel desapareceu ou Israel e os EUA agora sejam inimigos. Por acaso, sunitas e xiitas no Iraque começariam a se amar? Sunitas, xiitas e cristãos do Líbano se uniriam? Isso acabaria com a opressão dos cristãos no Egito? Melhoraria a situação da mulher ou poria fim ao uso da violência como arma política no mundo islâmico? Ilusão total."

São muitas as ilusões cultivadas nesta região. A carta da fundação do Hamas declara que, depois da Palestina, os judeus pretendem conquistar todo o território entre os rios Nilo e Eufrates. Uma parcela significativa dos muçulmanos acredita que foi Israel que realizou os ataques de 11 de setembro de 2001. Os colonos extremistas judeus acham que, se se mantiverem firmes, os milhões de palestinos que vivem a seu redor abandonarão sua terra.

Neste clima, as negociações de paz inevitavelmente exigem um ato de fé total. Mas, embora estas negociações possam conter um risco concreto de fracasso, assumir este risco parece preferível a ceder ao medo de que o conflito não tenha fim. A esta altura, a insistência americana em pressionar para conseguir um acordo tem também como base outros fatores específicos.

Interesses. Embora funcionários israelenses de escalões inferiores tenham criado embaraços ao governo Obama, este ano, com anúncios extemporâneos sobre a construção de casas em terras contestadas em Jerusalém Oriental, Israel também deixou claro que sabe que ter um governo americano forte do seu lado é fundamental para sua segurança. Aqui ninguém acredita que seja do interesse de Israel enfraquecer ou humilhar os Estados Unidos. É esta a razão principal pela qual, há um ano, Netanyahu congelou por dez meses a maior parte das construções na Cisjordânia.

Em 4 de julho, o presidente de Israel, Shimon Peres, discursou em uma das cerimônias pelo Dia da Independência dos Estados Unidos em Israel. E lembrou de quando David Ben Gurion, o primeiro-ministro fundador de Israel, se encontrou pela primeira vez com John F. Kennedy, em 1961, dias antes de este assumir a presidência.

Kennedy perguntou a Ben Gurion de que modo poderia ajudar Israel. "A melhor coisa que o sr. poderia fazer para Israel é ser um grande presidente para os EUA", respondeu. "Uma nação americana forte é vital para Israel", acrescentou.

Oportunidade. Além disso, há outra razão pela qual o governo Obama faz tanta questão de pôr fim à disputa. Netanyahu convenceu os principais membros de seu governo de que ele quer realmente um acordo e, à frente de um governo de direita, ele tem o prestígio político para fazê-lo. Alguns funcionários americanos também estão convencidos de que os atuais líderes palestinos, o presidente Mahmoud Abbas e o premiê Salam Fayyad, estão mais dispostos a negociar e a usar a diplomacia do que qualquer outros na história palestina. Ambos reiteraram sua renúncia à violência.

Há outro fator: o governo sabe que há um ponto além do qual a criação de um Estado palestino se tornará impraticável: quando houver um número tão grande de colonos israelenses em um território tão vasto da Cisjordânia que não será mais possível constituir um Estado viável. Alguns afirmam que com 300 mil colonos, este ponto já foi alcançado; todos concordam que não está muito longe.

Finalmente, é preciso considerar a violência futura. Há dez anos, quando as conversações de paz lideradas pelo presidente Bill Clinton em Camp David fracassaram, irrompeu o segundo levante palestino, que levou à explosão de ônibus, atentados suicidas e à dura retaliação israelense. Milhares de pessoas morreram - na maioria palestinos.

Segundo os militares e os funcionários do serviço secreto palestino, embora as forças que Dayton treinou sejam as mais profissionais que jamais existiram do lado palestino nesta área, sua disciplina e profissionalismo poderão entrar em colapso se não houver a perspectiva de um Estado independente.

"Se não houver um progresso real, acredito que, dentro de três, seis meses ou mesmo um ano, descobriremos que o sistema de segurança palestino funciona em um lugar muito diferente", disse um funcionário de alto escalão da inteligência israelense a correspondentes estrangeiros na semana passada, falando informalmente. "Para preservar a legitimidade e o funcionamento do sistema de segurança palestino, precisamos de um avanço concreto do processo de paz". / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É CORRESPONDENTE EM ISRAEL

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.