Sonho da reunificação coreana está cada vez mais distante

Nos últimos 5 anos, piora no clima de tensão desfez os poucos laços que restavam e enterrou projetos de integração

SEUL, O Estado de S.Paulo

11 de março de 2012 | 03h03

Os sinais vermelhos nos trilhos de trem de Dorasan, na fronteira da Zona Desmilitarizada entre as Coreias do Sul e do Norte, estão permanentemente ligados. A estação, nova, construída em aço e concreto, sempre vazia exceto por homens do Exército sul-coreano, espera o dia em que possa ligar Seul a Pyongyang, na Coreia do Norte. Dorasan é o retrato do projeto de reunificação dos dois países: um caminho que não leva a lugar nenhum.

Finalizada em 2007, quando ainda se acreditava que as negociações entre os dois países permitiriam a abertura de uma fronteira fechada há mais de 50 anos, a estação de Dorasan viu duas vezes o trem para Pyongyang passar, mas apenas em testes. Em dezembro de 2008, as luzes vermelhas foram acesas pelos norte-coreanos e o sonho de uma unificação, mesmo que parcial, ficou muito mais distante do que as duas capitais.

Os planos para unir as duas Coreias seguem sendo feitos, mas apenas do lado sul da fronteira. Nos últimos anos, o país investiu alguns milhões de dólares em planejamento, estrutura, construções para o dia em que a reunificação chegar. Técnicos foram enviados para estudar a reunião das duas Alemanhas. Um Ministério e um Conselho da Reunificação, cada um com atribuições diferentes, foram criados. "Nós acreditamos que a reunificação vai acontecer. Mas não podemos dizer quando", disse o vice-ministro de Reunificação Kim Chun-sig a um grupo de jornalista estrangeiros em Seul.

A admissão do principal planejador do processo de reunificação revela uma realidade que foge ao controle e aos desejos dos sul-coreanos. Do outro lado da fronteira, em Pyongyang, nem mesmo a miséria e a absoluta falta de alimentos autoriza que se considere a hipótese de que a dinastia Kim pense com seriedade em uma reunificação. "Hoje, unificação para eles é chegar até aqui e instalar um governo comunista", disse ao Estado um alto funcionário do governo sul-coreano. O discurso do governo norte-coreano não admite discordar da afirmação.

Ainda entrincheiradas cada uma em seu lado da última fronteira da Guerra Fria, as duas Coreias tornam-se cada vez mais distantes. O produto interno bruto norte-coreano é hoje 29 vezes menor do que o sul-coreano. Enquanto os vizinhos do norte sofrem com falta de energia, comida e combustível, o Sul se prepara para ampliar de 21 para 28 suas usinas atômicas de energia e se transforma em um dos maiores exportadores de automóveis e produtos de alta tecnologia.

Antes a parte mais rica e mais povoada de um país unificado, hoje a Coreia do Norte tem uma população de 25 milhões, a metade da Coreia do Sul.

A conta da reunificação, quando e se ela ocorrer, será salgada. Em um primeiro ano, US$ 50 bilhões apenas para alimentar uma população que cresceria 50% de uma hora para outra. Os cálculos feitos pelo governo sul-coreano apontam para um custo que, na melhor das hipóteses, em um processo gradual de 30 anos, poderia ser de US$ 100 bilhões.

Um colapso da Coreia do Norte, com uma reunificação radical no estilo alemão, multiplicaria por sete esse custo. "Mas não é por isso que vamos nos afastar dessa ideia. A grande questão é o quanto os coreanos querem essa unificação. Teríamos de alimentar toda essa população, mas também é uma oportunidade que precisa ser aproveitada", afirmou Nam Sung-wook, secretário-geral do Conselho Nacional de Unificação de Seul / L. P.

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