Sonho imperial de liderar o mundo

O próximo presidente dos EUA precisa parar de pensar em si como líder mundial e tentar ser o primeiro entre iguais

É JORNALISTA, ESCRITOR, WALTER, ELLIS, THE TELEGRAPH, É JORNALISTA, ESCRITOR, WALTER, ELLIS, THE TELEGRAPH, O Estado de S.Paulo

21 Março 2012 | 03h05

Nada - nem mesmo o mundo livre liderado pelos americanos - dura para sempre. Os impérios, que começam com triunfo e tributos, terminam, inevitavelmente, em obrigações e desperdícios. Eles crescem, atingem o apogeu, deixam sua marca e somem. O último império ao velho estilo com alguma consequência foi a União Soviética, com seus satélites, que um dia pareceu imutável, mas desapareceu durante o tempo de vida de uma pessoa.

Mas a perda de um império não precisa significar o declínio no padrão de vida oferecido aos cidadãos de antigas grandes potências ou no respeito a seus governos.

A Europa Ocidental, que dominou o mundo durante séculos, foi considerada "em declínio" desde a 2.ª Guerra. Mas vejam a Alemanha, um dos países mais ricos e economicamente mais dinâmicos do mundo. Ou considerem a França, com sua infraestrutura altamente desenvolvida e a disseminação quase ímpar de grandes corporações que comerciam entre si.

Mesmo a Grã-Bretanha, na qual o sol do império se pôs antes de David Cameron nascer, de algum modo seguiu em frente, ainda insegura sobre qual é seu lugar, mas conseguindo, adequadamente, oferecer um padrão de vida a seu povo que a mantém entre os "Dez Mais Globais".

Não é preciso ser um fã da União Europeia - e menos ainda do euro - para reconhecer essa verdade básica. Se Espanha, Portugal e Itália conseguirem se organizar melhor (e nos permitir deixar os inglórios gregos fora disso por enquanto), a prosperidade quase certamente não será prejudicada.

Na primeira vez que vivi nos EUA, poucos dias antes dos ataques do 11 de Setembro, lembro-me de ficar surpreso de saber que George W. Bush praticamente nunca saíra dos país e a maioria dos membros do Congresso não possui passaporte.

Isso não impediu Washington de rotular regularmente a Europa de antiquada e tecnologicamente atrasada. Era como se aqueles falastrões de Washington imaginassem que a maioria dos europeus ainda andasse a cavalo e devesse obediência a "barões e condes".

Quando Bush, decidido a estender a pax americana pelo novo século adentro, aventurou-se pela primeira vez na Europa, ele deve ter notado como suas cidades eram ricas e suntuosas, com seus grandiosos edifícios públicos, lojas elegantes e transporte público de alto nível. Mas fico imaginando se isso ficou gravado nele ou ele pensou que estava vendo uma fachada construída às pressas, como aquelas "aldeias-modelo" que Stalin exibia a dignitários estrangeiros e eram fechadas mal os visitantes partiam? Pergunto isso porque os americanos que entre 1945 e 2001 se acreditavam não só militarmente invencíveis, mas econômica e estruturalmente numa liga à parte, estão agora enfrentando, tardiamente, a perda de um império.

No momento em que o país caminha para outra eleição geral profundamente divisora, sua superioridade industrial, um dia inigualável, está em grande parte confinada às tecnologias de informação e aeroespacial.

Na esfera de tecnologia da informação, empresas como Apple, Microsoft, Intel Google, Facebook e Twitter estão anos à frente de sua concorrência. Mas por quanto tempo? Hoje, a China pode estar falsificando e imitando. Daqui a dez anos, ela estará fazendo suas próprias inovações. A Índia não fica muito atrás. O Brasil tampouco.

Isso tudo está deixando Obama nervoso. Ele ainda fala do futuro em termos de os EUA tornarem-se de novo o líder industrial do mundo, produzindo o melhor de tudo e pagando mais a seus trabalhadores. Se as corporações americanas repatriarem a produção, diz ele, em uma década esse objetivo será alcançado. O que ele não diz é que os trabalhadores americanos não só pedem salários dez vezes maiores que os pagos na China, como perderam as habilidades requeridas para montar produtos complexos.

A educação americana, em termos de elite, é a melhor do mundo. Pensem em Harvard e MIT. Mas no nível local, ou "público", ela é com frequência pouco mais que elementar. Milhões de cidadãos americanos não só têm pouca ideia da história e da geografia mundiais; eles carecem da habilidade técnica necessária para se equiparar a seus rivais asiáticos. Como poderia ser diferente? Quando se exportam os empregos, a base profissional implode em apenas uma geração.

Isso pode mudar. Alguma coisa extraordinária pode ocorrer. Mas até que ocorra, a China continuará dando saltos à frente e os EUA continuarão ficando para trás.

Nem todas as habilidades foram negligenciadas, é claro. Algumas foram conservadas e buriladas a um nível sensacional. Dizem que os EUA poderiam entrar em guerra contra o restante do mundo e vencer sem o menor esforço. Mas até as bravatas militares soam cada vez mais ocas.

Obama poderia, com a ajuda do lobby pró-Israel, ordenar que o Irã fosse destruído. Com isso, no espaço de uma semana Teerã e toda sua pompa apresentariam tanta ameaça quanto Cartago. O que os EUA não podem é ocupar o Irã - um Estado que existe há 2.500 anos - e persuadir seus habitantes a se tornar americanos. Iraque e Afeganistão mostraram que isso está fora de qualquer possibilidade aceitável.

O que as forças militares americanas poderiam provar? O que elas representam, aliás? No meu entender, a decisão mais sensata que os EUA poderiam tomar nos próximos quatro anos seria parar de intimidar o restante do mundo e no futuro só se manifestar militarmente quando eles ou seus aliados forem diretamente ameaçados - ponto em que eles entrariam e sairiam rapidamente.

Isso não só pouparia trilhões de dólares, mas os EUA poderiam, então, se concentrar na reconstrução de sua economia, a começar pela educação de seus jovens. Façam isso e seu futuro será realmente grandioso. Os EUA seriam, de novo, o país mais admirado e invejado do mundo, e de bem consigo mesmos, dispostos mais uma vez a desenvolver a liberdade, a prosperidade e - sim - a busca da felicidade.

Porque na verdade o que o mundo realmente admira nesse país não é a força militar nem suas habilidades questionáveis para construir nações, mas sua música, seus filmes, sua televisão, seu humor, seus parques temáticos, suas engenhocas e seu fast-food. Restaure-se a indústria e saneie-se o setor financeiro e o pacote será imbatível.

O próximo presidente dos EUA deve parar de pensar em si como o líder do mundo livre e tentar ser o primeiro entre iguais. Aí ele talvez consiga ser a inspiração por trás de um novo renascimento americano. O que, é bom que se diga, não é muito provável. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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