EFE/Mario Guzmán
EFE/Mario Guzmán

Sonhos de moradores de cidade mexicana correm perigo após medidas de Trump

Com construção de muro na fronteira dos países, confirmada na quarta-feira pelo presidente americano, e a ameaça de deportação em massa, moradores de Huimilpan - que viu 25% de sua população fugir para o país vizinho - não sabem o que esperar para o futuro

O Estado de S. Paulo

26 Janeiro 2017 | 10h40

CIDADE DO MÉXICO - Para os moradores de Huimilpan, emigrar para os Estados Unidos é uma forma de escapar do desemprego e encontrar as oportunidades que seu município lhes negou. No entanto, as advertências de Donald Trump ameaçam acabar com este sonho e geram a dúvida do que acontecerá com um possível retorno em massa de pessoas para esta cidade.

Calcula-se que em neste município mexicano, situado no estado de Querétaro, entre 8 mil e 10 mil pessoas, de seus 40 mil habitantes, cruzaram a fronteira. A maioria deles, em primeira instância, são homens que quando conseguem os papéis para ficar nos EUA entram com a permissão para outros membros da família.

José Antonio é um destes migrantes. Ele trabalha em Houston, no Texas - um destino recorrente para os habitantes de Huimilpan - há cinco anos no setor da construção. Com o dinheiro que conseguiu no país vizinho, este jovem pôde comprar um veículo e um terreno.

"Vou começar a construir minha casa, isso eu não teria conseguido lá", afirmou José Antonio, que usa a imagem de Nossa Senhora de Guadalupe em cima de sua camiseta, na qual está desenhado o mapa dos EUA com as cores da bandeira nacional.

Ele defende que no Texas há melhores oportunidades e condições econômicas, e os mexicanos que vivem lá são "honrados e humildes, não como (Trump) pensa", em referência às afirmações do republicano, que chegou a chamar os migrantes de "criminosos" e "estupradores".

Os planos de Trump, que na sexta-feira passada se tornou o 45º presidente dos Estados Unidos, de fazer deportações maciças preocupam os moradores de Huimilpan, embora não interrompam os planos de muitos que não conseguem ver um futuro em sua cidade.

"Aqui, tendo estudo ou não o salário não é muito. Para quem deseja um futuro ou uma família é muito pouco para seguir em frente", argumentou Erick Durán, que sonha ir para os EUA, onde já está parte de sua família.

A migração afeta mais o sul do município, área mais prejudicada pelo desemprego ou pelas más condições trabalhistas que o norte, perto da capital do estado, Querétaro. Fascinados por seus irmãos mais velhos, que retornam para visitar Huimilpan com dinheiro e roupas de marca, muitos jovens estudam pensando que logo depois de acabá-lo deixarão o país.

No entanto, nem todos preferem ir para os EUA e querem permanecer em seu município, embora em condições mais humildes. É o caso de Jaime Martínez, que vem de uma família de 14 irmãos, dos quais nove encontraram seu sustento fora do México, na pesca e em diferentes restaurantes.

"Pelas vezes que fui visitá-los, as condições nas quais vivem ou têm que trabalhar, para mim são muito pesadas: levantar às cinco da manhã, chegar em casa às sete ou oito da noite", opinou Jaime, que trabalha como funcionário público de Huimilpan.

Na cidade, o principal empecilho para o desenvolvimento é o emprego e, por isso, "se retornassem cerca de 3 mil seria um problema muito grave", avaliou, com um cálculo aproximado do número de pessoas de Huimilpan que estão nos EUA em situação irregular.

No entanto, as medidas que o presidente aplicará, além da construção do muro na fronteira entre Estados Unidos e México confirmada na quarta-feira, ainda são uma incógnita. Alguns moradores de Huimilpan pensam que talvez o discurso do republicano durante sua campanha não chegue a se materializar; outros temem que o caminho dos migrantes rumo ao norte se torne mais perigoso, e todos expressam sua rejeição ao muro.

"Meus irmãos querem ir embora, mas talvez não saiam, têm medo de talvez serem alvejados por tiros, ou do muro que vão construir", comentou María Luz Morales. Apesar do medo, ela assegurou que seus irmãos gostariam de escapar dos salários "miseráveis" do município, e emigrar "para fazer um dinheiro e sobreviver". / EFE

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