Cristiano Dias / Estadão
Cristiano Dias / Estadão

Sonhos que acabam na Guatemala

Histórias de imigrantes que fogem da violência brutal, mas que, sem dinheiro para chegar aos EUA, ficam pelo caminho

Cristiano Dias, enviado especial à Cidade da Guatemala, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2018 | 05h00

Eles chegam aos poucos, assim que a noite cai. Entram abatidos em um sobrado da Zona 1, periferia da Cidade da Guatemala. Antes das 21 horas, todos têm de estar na cama. O toque de recolher é inevitável. Nos arredores, as ruas são lentamente tomadas pelo breu. Os poucos postes acesos emitem uma luz de gafieira, que deixa o ambiente ainda mais sombrio. Na semana anterior, as câmeras de segurança da Casa do Migrante, que acolhe os refugiados na capital, flagraram um jovem sendo colocado à força no porta-malas de um carro.

Eles vieram de El Salvador, Honduras e Nicarágua. Muitos estavam na caravana que seguiu para os EUA, mas ficaram pelo caminho por falta de dinheiro ou de saúde para seguir viagem. É o caso de Isabel Benítez Rapalo, de 42 anos – pai de família, apesar do nome. Ele vendia sorvetes em Puerto Cortés, Honduras, e chegou na boleia de um caminhão ao lado da mulher e dos quatro filhos – o caçula, de apenas 2 anos, estava doente e a família decidiu ficar na Guatemala. 

Rapalo faturava pouco mais de US$ 10 por dia em sua terra natal e mal conseguia sustentar a família. Mesmo ganhando um salário de fome, foi assaltado três vezes. Na última, em julho, levaram sua bicicleta, suas calças e sapatos – ele foi deixado nu, no meio da rua. Quando sentiu que a prática tinha virado rotina, parou de trabalhar. Assustado, raramente saía de casa. Rapalo conta que trabalho é o que não falta em Puerto Cortés – mas nenhum é legal. Paga-se bem, mas flerta-se com a cadeia. 

Em agosto, o mesmo bando que o assaltava lhe apresentou uma proposta: uma bolada de dinheiro para carregar um pacote de cocaína de um lado para o outro da cidade. Ao recusar, Rapalo assinou sua sentença de morte. Alertado por amigos de que tinha a cabeça a prêmio, decidiu fugir. “Eles estavam ameaçando até os meus filhos”, lembrou. “Não tenho dinheiro para chegar aos EUA. Por isso, aceito viver em qualquer lugar. Desde que não seja em Honduras.”

Repressão

 Ao lado de Rapalo, também sentados à mesa, outros dois relatos de violência, mas de origem diferente. Carlos Alberto González Hernández, de 56 anos, e sua mulher, Flor de María Estebán, de 53, trabalhavam no departamento de limpeza da prefeitura de Jinotepe, na Nicarágua, cidade de 30 mil habitantes a 40 quilômetros de Manágua. Carlos foi guerrilheiro da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), liderada pelo presidente Daniel Ortega. 

Em abril, Ortega tentou emplacar uma reforma da previdência. Bastante impopular, a medida levou o povo às ruas e os protestos se espalharam pelo país. O governo voltou atrás, mas já era tarde. As manifestações passaram a pedir a renúncia do presidente, há 12 anos no poder e reeleito para um contestado terceiro mandato, em 2016, com mais de 70% dos votos. À frente dos rebeldes estavam os estudantes, que montaram barricadas em vários pontos da Nicarágua. 

Como ex-guerrilheiro da FSLN, Carlos recebeu uma ordem de antigos companheiros: pegar em armas e desmantelar as barricadas que interrompiam a estrada para Manágua. Na prática, ele percebeu que sua missão era matar jovens desarmados. “Eu não só neguei como fui às barricadas ajudar os estudantes”, disse. 

Entrincheirados, os jovens estavam protegidos por pneus velhos, espingardas enferrujadas e bombas de contato. Carlos sabia que a luta era desigual. “Os paramilitares tinham fuzis M14, lançadores de granada, RPGs e franco-atiradores.” No domingo, 8 de julho, às 5 horas da manhã, ele escutou as sirenes do quartel dos bombeiros – onde trabalhava seu irmão – e os sinos da igreja. Era o aviso da população de que os soldados começariam o ataque. 

Às 10 horas, Carlos conta que recuperou uma metralhadora RPK, com a qual manteve a barricada de pé até as 14 horas. Às 15 horas, ele tomou um tiro no braço e deu ordem para que os jovens dispersassem. Às 16 horas, sem munição, fugiu. 

Carlos fala da guerra com a calma de um profissional da violência. Os próximos três meses ele passaria escondido em um apartamento de Manágua, fornecido por ONGs de defesa dos direitos humanos. 

Tortura

Mesmo enclausurado, a decisão de fugir só foi tomada depois que ele teve notícias da mulher. Flor havia levado comida para os rebeldes nas trincheiras e foi capturada assim que os militares dominaram Jinotepe. Presa, ela foi brutalmente torturada – os militares arrancaram suas unhas. “Eles queriam que eu dissesse onde meu marido estava, mas eu não sabia”, contou. “Na prisão, vi estudantes com testículos esmagados e mulheres grávidas sendo agredidas com chutes na barriga.” 

Assim que pisou fora da cadeia, Flor encontrou um emissário de Carlos, que havia organizado a fuga – a Costa Rica seria o destino mais fácil, mas a fronteira estava bem guardada, segundo ele. Com US$ 30 doados pelos ativistas, eles conseguiram subornar policiais na fronteira com Honduras e tomar um ônibus até a Guatemala. 

Carlos e Flor ainda sonham com os EUA, mas a falta de dinheiro torna a viagem impossível. Enquanto aguarda o pedido de asilo na Guatemala, o casal ainda tem esperança de trazer os dois filhos, de 30 e 22 anos, que permanecem escondidos na Nicarágua. “Sentimos falta deles. Mas, se voltarmos para a Nicarágua, eles nos matam”, disse Carlos.

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