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Sonhos tropicais

Só o próprio Edward Snowden sabe o que passa pela sua cabeça e o homem que escancarou os segredos da espionagem dos EUA não conta nada. No entanto, é tentador imaginar as razões do ex-analista de segurança da Agência de Segurança Nacional (NSA) enquanto ele avalia o menu de opções desde seu pouso provisório em Moscou. Ainda mais no frio do inverno russo, onde Snowden encontrou abrigo, mas perdeu a voz pelas condições impostas pelo Kremlin.

MAC MARGOLIS, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2013 | 02h03

Com sua recente "carta aberta ao povo brasileiro", Snowden nos autoriza a especular sobre seu dilema. Venezuela, Bolívia e Equador andaram flertando com o ex-consultor americano. No entanto, Snowden teve bons motivos para recusar propostas dos bolivarianos, para quem a pimenta de segredos vazados é refresco apenas nos olhos dos gringos.

Dentre os destinos possíveis para o americano desterrado, o Brasil desponta como ecossistema promissor. Afinal, é um portento entre os emergentes, democrático e dono de uma diplomacia independente. Respeita a liberdade de expressão e nutre um certo dissabor frente ao poderio americano. Tanto que o Palácio do Planalto parece até teleguiado por Snowden, que se manifesta pela caneta do jornalista Glenn Greenwald.

Foi depois de seus flagrantes sobre os arapongas americanos, revelados em artigos no jornal O Globo, que a presidente Dilma Rousseff cancelou sua visita oficial a Washington. Na sequência, pediu ao governo de Barack Obama explicações sobre a varredura das comunicações brasileiras e deu preferência aos suecos na compra de caças novos para a Força Aérea Brasileira, preterindo o modelo da americana Boeing.

Pela valentia, o Brasil colheu aplausos internacionais de todos aqueles que desejam peitar a "pax americana" ou, pelo menos, podar sua rede de intrigas. Por essas e outras, Snowden deve ter se animado com a ideia de um pouso tropical. Seja qual for o desfecho do imbróglio, o affair representa um upgrade para o Brasil.

Não faz muito tempo, o País era mais conhecido por sua vastidão continental impenetrável e sua Justiça porosa, ambientes ideais para célebres criminosos e malandros internacionais. Agora, mudou. Hoje, fogem (enquanto podem) do raio da Justiça verde-amarela os bandidos renomados, como o banqueiro Salvatore Cacciola e o ex-diretor de marketing do Banco do Brasil, Henrique Pizzolato.

Ao mesmo tempo, ganhamos foragidos da alta roda, como Greenwald, o parceiro - ou ventríloquo, você escolhe - de Snowden, que transcreveu os segredos da espionagem americana em reportagens de fôlego e provocou sismos de Washington a Berlim. Imaginei que sua estadia na terrinha seria passageira, já que Greenwald protagonizou o maior furo do noticiário internacional dos últimos tempos. Ao contrário, anunciou que ficaria aqui para tocar um novo empreendimento de jornalismo investigativo. A possível chegada de Snowden empolga congressistas, intelectuais, militantes da esquerda e um mundaréu de internautas - e todos que se preocupam com a pegada do grande irmão americano. Menos Brasília.

Sua carta à nação parece mais uma sondagem para insuflar simpatia do que um pleito. O americano errou a mão ao afirmar que a NSA está no encalço de praticamente todos. Uma coisa é contestar as atitudes indigestas e domar os instintos totalitários da hiperpotência global. Outra é provocá-la, como o Brasil faria caso estendesse o tapete para o foragido titular do governo americano. O resto é sonho tropical.

É COLUNISTA DO 'ESTADO',

CORRESPONDENTE DO SITE

THE DAILY BEAST E EDITA O SITE

WWW.BRAZILINFOCUS.COM

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